Lynyrd Skynyrd (acima), Lzzy Hale, do Halestorm (à esquerda) e Axl Rose e Slash (à direita), do Guns N’ Roses, durante o Monsters of Rock 2026 – Fotos: Reprodução de vídeos no YouTube

O festival Monsters of Rock Brasil reuniu, em 2026, bandas com predomínio do hard rock, em uma aposta fora da fórmula tradicional do evento, que costuma priorizar o heavy metal. Em um Allianz Parque praticamente lotado e com muito calor em São Paulo, o público testemunhou bons shows no sábado, 4 de abril.

Em dia de véspera de Páscoa, o festival trouxe show emocionante e apoteótico do grupo norte-americano Lynyrd Skynyrd, que entregou, com sobras, a melhor performance do evento. Outra apresentação marcante e arrebatadora foi proporcionada pela banda Halestorm, também dos Estados Unidos.

O headliner Guns N’ Roses teve, infelizmente, sua apresentação bastante prejudicada pela qualidade ruim do som. Apesar de a banda norte-americana claramente se esforçar no palco para entregar um show de qualidade, uma parte considerável do público, especialmente o localizado na Pista Comum e nas cadeiras inferiores atrás da divisão da Pista Vip, teve a experiência frustrada de não conseguir aproveitar a performance do principal grupo da noite da maneira adequada.

O Monsters of Rock ainda teve boas apresentações do já veterano grupo norte-americano Extreme e da banda Dirty Honey, também dos EUA.

Completaram o line-up o grupo britânico, Jayler, que abriu o festival, e o guitarrista sueco Yngwie Malmsteen, que foi o único representante do heavy metal no evento dominado pelo hard rock.

Lynyrd Skynyrd emociona e faz o melhor show

A volta do Lynyrd Skynyrd a São Paulo após 3 anos foi em grande estilo. Estreante no Monsters of Rock como todas as outras atrações do dia, a banda dos EUA entregou um show que entrou para a galeria dos melhores do festival brasileiro.

Com músicos de qualidade gigantesca, o grupo fez a alegria dos fãs e conquistou os menos conhecedores de seu estilo e história a cada canção executada.

De maneira diferente do que aconteceu com o Guns, o Lynyrd Skynyrd trouxe um som em nível bastante alto, como manda o bom e velho rock and roll.

A despeito de algumas reclamações pontuais ouvidas pela reportagem do Roque Reverso e mencionadas também nas redes sociais, de “estouro do som” em locais específico do Allianz Parque, a avaliação predominante foi positiva neste quesito, já que é melhor para o estilo um show com som forte do que com algo fraco.

O repertório apresentado pelo Lynyrd Skynyrd no Monsters of Rock foi apanhado de clássicos da carreira, começando com “Workin’ for MCA” e encerrando com o hino “Free Bird”.

“That Smell”, “Saturday Night Special”, “Still Unbroken” e “Sweet Home Alabama” marcaram presença e saciaram a vontade dos fãs de presenciar grandes momentos ao vivo, tudo com uma qualidade musical impecável dos componentes da banda.

A despeito de nenhum integrante da formação clássica estar vivo hoje em dia, o atual Lynyrd Skynyrd consegue bater inúmeras bandas, tanto que foi o melhor show do festival.

Destaque especial para a performance do ótimo guitarrista Rickey Medlocke, do baterista Michael Cartellone e, claro, do vocalista Johnny Van Zant, irmão do saudoso Ronnie Van Zant, morto no acidente aéreo que gerou uma das maiores tragédias do meio musical.

Enquanto Medlocke parece ser a alma atual da banda,  Cartellone é o motor. Johnny Van Zant, por sua vez, é o grande mestre de cerimônias e faz toda a condução do show com uma naturalidade ímpar.

Na impecável performance do Lynyrd Skynyrd, dois momentos entraram para a história do Monsters: a execução da dobradinha com “Tuesday’s Gone” e “Simple Man” e o final apoteótico com “Free Bird”.

Enquanto “Tuesday’s Gone” foi dedicada ao saudoso guitarrista Gary Rossington, que morreu em 2023, “Simple Man” fez o Allianz Parque virar um corpo único de belas vozes.

Em ambas as músicas, a emoção foi palpável e se fez presente até mesmo no mais frio dos espectadores presentes. Em vários momentos desta canções, o telão mostrou fãs indo às lágrimas sinceras e de acordo com tudo que era possível sentir na Arena do Palmeiras.

Um dos maiores hinos norte-americanos, “Free Bird” realmente tem um poder inexplicável sobre a plateia. E este processo de conquista vem num crescente ao longo da canção que termina de maneira apoteótica, regada a um solo de guitarra longo e capaz de “hipnotizar” boa parte do público.

E vale destacar que este mesmo público já estava emocionado com a homenagem nos telões feita aos membros falecidos do Lynyrd Skynyrd e com uma gravação recuperada de Ronnie Van Zant cantando um trecho da música no passado, com acompanhamento da banda atual ao vivo.

O solo capitaneado por Rickey Medlocke deixou as pessoas vidradas e poucas coisas são mais rock and roll do que isso. Felizarda foi a pessoa presente no Allianz Parque que viveu este momento histórico.

Halestorm faz show marcante e traz a ‘força da natureza’ Lzzy Hale

Quando o Halestorm foi anunciado no Monster of Rock, a recepção inicial de quem gosta da boa música foi de esperança por algo especial no festival e de reconhecimento pela importância da banda no cenário internacional, onde costuma figurar nos maiores festivais do planeta com frequência. No sábado no Allianz Parque, as expectativas se confirmaram e o grupo norte-americano escreveu um capítulo importante na história do festival brasileiro.

Comandado pela “força da natureza” Lzzy Hale, o Halestorm fez um show gigantesco na Arena do Palmeiras. Trouxe hits consagrados, como “I Miss the Misery” e “Love Bites (So Do I)” e foi ganhando aquele público que foi para assistir a outras bandas e conhecia pouco dos norte-americanos, até ser aplaudido por todo o estádio no fim da apresentação.

Os grandes momentos do show foram a performance da vocalista nas músicas “Like a Woman Can”, “I Get Off” e “Rain Your Blood on Me”.

Se até ali existia alguém com alguma rejeição ou implicância com o som da banda, tudo caiu por terra com o espetáculo vocal proporcionado por Lzzy Hale.

Não há como não reconhecer o talento da vocalista e também não há como questionar o motivo pelo qual o Halestorm não ter vindo mais vezes a outros festivais importantes brasileiros.

Alguém aí tem dúvida que a banda faria um show gigante num Rock in Rio (já tocou lá em 2015 no Palco Sunset, mas comandaria fácil um Palco Mundo), The Town ou Lollapalooza? O Roque Reverso tem certeza que o grupo nadaria de braçada.

Guns se esforça, mas boa parte do Allianz Parque se decepciona com o som

Infelizmente, para boa parte do Allianz Parque, a apresentação do Guns N’ Roses foi um misto de frustração e revolta. Tudo porque o som durante o show da veterana banda norte-americana chegou a várias partes da arena de maneira fraca e baixa.

Para quem estava da divisão entre a Pista Vip e a Pista Comum para trás, o susto foi gigantesco quando o grupo iniciou a apresentação com “Welcome to The Jungle”. Depois de um som forte e impactante do Lynyrd Skynyrd, ouvir Axl Rose & Cia na sequência parecia como comparar uma Ferrari e um Fusquinha.

A impressão era que o som do Guns estava dentro de uma garrafa de vidro, distante e baixo, algo que este jornalista nunca havia presenciado no Allianz Parque.

É importante destacar que o Roque Reverso não conseguiu credenciamento de imprensa (sequer recebeu o e-mail da assessoria de imprensa da Mercury Concerts).

A imprensa sempre fica na Pista Vip, onde tudo é mais fácil, visualmente ou sonoramente. Mas, no Monsters de 2026, este jornalista conseguiu batalhar e conquistar apenas ingressos de Pista Comum.

Certas coisas parecem acontecer justamente para que outras pessoas se sintam representadas. Enquanto outros veículos muito provavelmente tiveram um som perfeito à disposição, o Roque Reverso sentiu a diferença onde estava presente.

A decepção com o som foi tamanha que alguns intrépidos da Pista chegaram a iniciar, sem sucesso, em vários momentos do show, um coro pedindo para que o volume do som fosse elevado.

Nas redes sociais do Monsters of Rock e do Allianz Parque há uma série de relatos de pessoas reclamando, com todo o direito, já que o ingresso em nenhuma parte do Allianz Parque foi barato.

Para muitos, a decepção foi maior porque o Guns N’ Roses trouxe um set list diferente e com várias músicas menos presentes no set list do que os sucessos habituais.

O mundo inteiro e inclusive ele mesmo sabe que a voz de Axl Rose está claramente prejudicada e, infelizmente, não chega a 50% do que foi vista em tempos áureos. Isso não é exclusividade do vocalista de 64 anos, mas a insistência de Axl com tons do passado, infelizmente, vem gerando memes de internet para uma figura que conseguia surpreender no passado pela versatilidade e tons de voz completamente diferentes numa mesma música.

Ian Gillan, do Deep Purple, e Steven Tyler, do Aerosmith, só para citar nomes gigantescos, como Axl, no hard rock, adaptaram o tom das músicas para o estágio mais recente de suas vozes. Mas Axl parece lutar para manter a mesma estrutura, o que gera um claro sofrimento vocal durante as apresentações.

A mudança de repertório recente, pelo menos, pareceu uma tentativa. Saem, por exemplo, “Patience” e “Don’t Cry”, que foram tocadas no mesmo Allianz Parque em 2017 no São Paulo Trip e nos shows memoráveis de retorno de Duff McKagan e Slash de 2016. Ganham mais espaço, em 2026, “Bad Obsession” e “Double Talkin’ Jive”, com tons mais graves.

Interessante também o Guns tocar a versão de “Slither”, do Velvet Revolver, que já esteve presente no mesmo Allianz Parque no show de 2025.

Em contrapartida, a grande novidade da noite, a faixa “Bad Apples”, tocada pela primeira vez desde 1991, ficou completamente incompreensível, para quem estava na Pista, mesmo com o som melhorando a partir da execução da música “New Rose”, do grupo The Damned, com Duff nos vocais.

Sim, é sempre gratificante ver o Guns executando “Sweet Child o’ Mine”, “Estranged”, “November Rain”, “Nightrain” e “Paradise City”, entre outras faixas. Mas ficou, para quem presenciou os problemas com o som, a decepção nas músicas do começo do show, já que a banda era a headliner e, disparada, a mais aguardada para a maioria dos presentes na Arena.

Extreme faz bom show, mas que passou rápido demais

Outra banda do line-up do Monsters of Rock que despertou a ansiedade dos fãs do bom e velho hard rock dos Anos 1980 e 1990 foi o Extreme. Comandada pelo competente vocalista Gary Cherone e pelo ótimo guitarrista Nuno Bettencourt, o grupo saciou a vontade de fãs que esperavam ver a banda num festival do nível de um Monsters of Rock.

Com hits incontestáveis, como “Hole Hearted” e a belíssima balada “More Than Words”, a banda fez a alegria do público. Mas também trouxe outras faixas ótimas da carreira, como “It (‘s a Monster)” e “Decadence Dance”, além de faixas mais recentes, como “#REBEL”, “Thicker Than Blood” e “Rise”, do álbum “Six”, de 2023.

A sensação, no entanto, foi de um show curto para a importância da banda.

Como momento marcante para a história do Monsters of Rock, não há dúvida que o Allianz Parque inteiro cantando “More Than Words” já fez o Extreme escrever seu nome na história do festival.

Yngwie Malmsteen tenta, mas público não era para instrumental

Não há dúvida alguma que o sueco Yngwie Malmsteen é um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Mas também é certo que o som virtuoso, em grande parte instrumental, dificilmente se encaixa num festival, ainda mais quando só ele tem pitadas de heavy metal, num “mar de hard rock”.

A ideia foi, sim, interessante, pois o guitarrista tem talento de sobra e isso nunca é demais para quem gosta de música de qualidade. Mas é díficil segurar um show deste nível para um público de outra vertente.

As ótimas “Rising Force”, “Black Star” e “I’ll See the Light Tonight” marcaram presença obrigatória, mas o público acabou vibrando mais com os trechos de “Bohemian Rhapsody”, do Queen, e “Smoke on the Water”, do Deep Purple.

Dirty Honey e Jayler

O Dirty Honey fez um show interessante e que mostra que o rock ainda tem muita lenha para queimar. A banda norte-americana de hard rock, fundada em 2017, correspondeu às expectativas.

Com um hard rock no estilo setentista, o grupo conseguiu fazer o público do Allianz Parque prestar atenção e contemplar o show mesmo com o sol e calor intensos que davam sensação de sauna, especialmente para quem estava na Pista, onde o sol insistia em ser mais forte.

Quanto ao Jayler, infelizmente, o Roque Reverso não conseguiu assistir ao show e a este veículo só resta pedir desculpas aos nobres leitores. Apesar de termos chegado a tempo de ver a banda, a fila gigantesca para entrar pela Rua Palestra Itália e a revista demorada fizeram nossa chegada acontecer já no fim da apresentação da banda.

Os comentários de quem assistiu, no entanto, foram positivos para o grupo formado no Reino Unido.

Nona edição em SP

A capital paulista recebeu todas nove edições principais do Monsters of Rock no Brasil e teve, em 2026, um line-up mais voltado ao hard rock. Nas quatro edições clássicas que aconteceram no País na década de 90, os festivais da série sempre foram predominantemente de heavy metal.

Enquanto os eventos de 1994, 1995 e 1996 aconteceram no Estádio do Pacaembu, o festival de 1998, foi realizado na pista de atletismo do Ibirapuera.

A primeira edição, em 1994, trouxe quatro bandas nacionais (Angra, Dr. Sin, Viper e Raimundos) e quatro internacionais (Suicidal Tendencies, Black Sabbath, Slayer e KISS).

Na edição de 1995, o número de atrações aumentou. A única banda nacional foi o Virna Lisi. Já entre o nomes internacionais, os representantes foram Rata Blanca, Clawfinger, Paradise Lost, Therapy?, Megadeth, Faith No More, Alice Cooper e Ozzy Osbourne.

Na edição de 1996, o grupo Raimundos foi o único brasileiro. Na parte internacional, os nomes foram Heroes del Silencio, Mercyful Fate, King Diamond, Helloween, Biohazard, Motörhead, Skid Row e Iron Maiden.

O Monsters de 1998 também trouxe grande número de atrações. Entre os brasileiros, os representantes foram o Dorsal Atlântica e o Korzus. Do lado internacional, Glenn Hughes foi o primeiro a tocar, seguido por Savatage, Saxon, Dream Theater, Manowar, Megadeth e Slayer.

Em 2013, o Monsters retornou para matar as saudades dos fãs e foi realizado na Arena Anhembi. Os headliners foram o Slipknot, que fechou o primeiro dia, e o Aerosmith, que encerrou o segundo dia do evento. Destaque também para outros grandes shows, como os do Whitesnake e do Ratt.

O festival daquele ano também contou com as apresentações do Queensrÿche, do Korn e do Limp Bizkit e surpreendeu pela qualidade sonora na sempre questionada Arena Anhembi.

Em 2015, uma outra ótima edição do Monsters aconteceu na Arena Anhembi. Entre os destaques do mais recente festival da série em São Paulo, vale lembrar o cancelamento triste e surpreendente do Motörhead por causa da saúde do saudoso Lemmy, a festa do rock pesado promovida por Ozzy Osbourne, dois shows matadores em dois dias consecutivos do Judas Priest e a apresentação apoteótica do KISS.

Em 2023, pela primeira vez no Allianz Parque, o festival contou com o headliner KISS, além de Scorpions, Deep Purple, Helloween, Candlemass, Symphony X e a cantora Doro.

A edição estava sendo divulgada como uma espécie de “último evento”, mas o sucesso e a repercussão foram tão grandes que o evento que lotou a Arena do Palmeiras parece ter causado um alerta para os organizadores: de que ainda há muita lenha para queimar e muitas edições para acontecer.

Em 2025, outra edição do Monsters of Rock foi realizada no Allianz Parque e o público saiu satisfeito. Na ocasião, os organizadores decidiram comemorar os 30 anos do festival no Brasil e trouxeram nada menos que Scorpions, Judas Priest, Europe, Savatage, Queensrÿche, Opeth e Stratovarius para fazer a alegria dos amantes do heavy metal e do hard rock.

Integrantes deste Roque Reverso estiveram em todos os Monsters of Rock realizados em São Paulo, como meros fãs nos Anos 1990 ou fazendo a cobertura jornalística a partir de 2013, com ou sem a credencial de imprensa.

Um outro detalhe que só estando na Pista Comum para perceber foram as filas intermináveis para os banheiros no Allianz Parque. Se, quando foi pela Pista Vip, este jornalista nunca viu filas extremamente longas, em 2026, elas chegaram a assustar, já que todos os espaços embaixo das Cadeiras Inferiores do Allianz, atrás da Pista, ficaram bastante lotados, com dificuldade para que as pessoas andassem por ali.

O balanço de 2026 é, no entanto, positivo, apesar da questão do som do Guns N’ Roses e desta questão de filas. Enquanto existir público e gente disposta a montar um festival deste porte, o bom e velho rock and roll sempre vai agradecer.

Set list e vídeos do Monsters of Rock 2026

O repertório de cada show no Monsters of Rock 2026 pode ser conferido aqui neste link, que está em constante atualização de informações.

O Roque Reverso descolou vídeos no YouTube, alguns deles filmado por nós, mesmo distantes do palco. Confira abaixo alguns dos momentos mais marcantes do festival.

Monsters of Rock traz Lynyrd Skynyrd emocionante e apoteótico, Halestorm marcante e som ruim para o headliner Guns N’ Roses