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50 anos do essencial e memorável ‘Abbey Road’, clássico álbum dos Beatles

Por Roberto Carlos dos Santos*

Os Beatles, em sua jornada meteórica e espetacular, deixaram alguns discos memoráveis: “Rubber Soul”, “Revolver”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e o chamado “Álbum Branco” estão presentes em qualquer lista de maiores discos de rock de todos os tempos. Ao lado deles está “Abbey Road” – que, neste dia 26 de setembro de 2019, completa 50 anos de lançamento.

O 12º álbum da banda britânica tem o mesmo nome da rua em Londres na qual está localizado o Abbey Road Studios. Antigamente chamado de EMI Studios, foi palco de momentos históricos dos Beatles – como a gravação de “All You Need Is Love”, na primeira transmissão mundial ao vivo via satélite, em junho de 1967.

Pelo estúdio londrino passaram outros grandes nomes da música britânica, como  Pink Floyd, Radiohead, Amy Winehouse, e Adele, entre outros.

“Abbey Road” foi produzido e orquestrado por George Martin para a Apple Records e apesar de ter sido o penúltimo álbum lançado pela banda, foi o último a ser gravado. As músicas do último disco lançado pelos Beatles, “Let It Be”, foram gravadas alguns meses antes das sessões que deram origem a “Abbey Road”. Como em outros discos da fase final da banda, este expõe a genialidade dos seus integrantes sob uma nova ótica: com o grupo se desintegrando, não havia mais a preocupação em manter a unidade. Cada um passou a  fazer o que bem entendia e apenas Paul McCartney tentava, ainda, manter o grupo vivo. Sendo assim, havia um terreno propício para o surgimento de obras inovadoras.

George Martin, que produziu e orquestrou o álbum junto a Geoff Emerick como engenheiro de som e Alan Parsons como assistente de som, considerava “Abbey Road” o melhor disco que os Beatles fizeram. O álbum foi cuidadosamente produzido e em seu Lado B trazia uma unidade musical – com um pot-pourri que conferia ao disco um aspecto uniforme e fluido. As músicas se sucediam sem interrupções. Também foram usados novos recursos tecnológicos, como o  sintetizador Moog, que praticamente permitia que qualquer som fosse gerado eletronicamente.

Neste cenário, aparece a genialidade de George Harrison. O guitarrista passou boa parte do seu tempo na banda deixando o protagonismo para a dupla Lennon & McCartney. Neste álbum, porém, assinou “Here Comes the Sun” e “Something”, que se tornaram duas das canções mais cultuadas dos Beatles. Frank Sinatra gravou “Something” nos Anos 70 e esta foi a única música dos quarteto britânico cantada por ele em shows. Sinatra a classificava na época como “a melhor balada dos últimos 50 anos” e chegou a dizer que era a melhor obra da dupla Lennon & McCartney – desconhecendo, de início, que era de autoria de Harrison. “Something” também foi gravada por Ray Charles, Smokey Robinson, James Brown e Shirley Bassey – entre outros. “Here Comes the Sun”, trazia letra otimista e melodia de rara beleza. Também foi regravada por vários cantores.

Entre os destaques de Lennon está “Come Together”, música que abre o disco. Segundo consta, foi escrita para Timothy Leary, baseado no slogan da campanha deste para o governo da Califórnia em 1969 (“Come Together, Join the Party”). Nesta faixa aparece a veia roqueira de Lennon, crua e direta ao ponto. Ainda que as composições de “Abbey Road” revelassem pouca participação dos parceiros, “Come Together” teve arranjos de Paul – após este apontar que a versão inicial se parecia muito com “You Can´t Catch Me, de Chuck Berry. Ainda no Lado A , Lennon retoma o vigor roqueiro em “I Want You (She´s So Havy)”.

No Lado B, porém, John aparece mostrando seu lado lírico e sensível, com a encantadora “Because” – talvez o mais belo vocal já feito pelos Beatles, acompanhado por uma instrumentação minimalista. John, Paul e George cantam juntos – como haviam feito no início da carreira em canções com “Yes It Is “ e “This Boy”. Para o resultado final, as vozes foram três vezes sobrepostas (overdub), criando um efeito de nove vozes.

“Because” foi inspirada na chamada “Sonata ao Luar” de Beethoven. Yoko Ono tinha formação de pianista clássica, mas havia parado de tocar porque seu pai, de forma insensível, zombara se suas mãos pequenas e dissera que ela não alcançaria sucesso. Passou, então a compor, mas depois se concentrou na arte de vanguarda. Às vezes, porém, tocava para o marido. Foi o caso dessa peça clássica. John gostava muito da música e uma vez pediu que Yoko a tocasse com os acordes em ordem inversa, o que lhe deu a base para compor “Because”.

Ringo não toma parte nesta gravação, mas assina no disco aquele que seria o seu maior sucesso dentro do grupo: “Octupus’s Garden”. Na letra, o baterista diz que gostaria de estar fora da realidade diária e esconder-se no fundo do mar. Consta que o amigo George o ajudou a fazer a canção, mas isso nunca foi confirmado. A assinatura traz apenas Richard Starkey como autor.

Paul McCartney também deixou algumas de suas pérolas neste álbum. Em “Oh! Darling”, faz uma de suas grandes interpretações. Em sua biografia autorizada, “Many Years From Now”, escrita por Barry Miles, o baixista diz que gastou mais tempo do que o usual para “encontrar” a voz certa. “A música era uma coisa de empolgação e não ia funcionar se saísse morna”, conta. Por fim, ele afirma ter conseguido um vocal, mas, surpreendentemente, diz  ter ficado “mais ou menos satisfeito” com o resultado final. Paul também conta que John considerava a música ótima, mas  que achava que teria feito um vocal melhor, pois a canção era mais ao seu estilo. No lado A, Paul ainda assinaria “Maxwell’s Silver Hammer”, música bem menos inspirada.

No antológico Lado B, McCartney apresenta a bela “You Never Give Me Your Money”. Nesta canção, Paul muda diversas vezes seu modo de cantar e arranjos, o que nos dá a impressão de que são várias músicas dentro de uma só. Gostava dessa brincadeira. Na carreira solo, repetiu este expediente em canções como “Band On The Run” e “Uncle Albert/Admiral Halsey”. Todas têm partes distintas, porém harmoniosas. “You Never Give Me Your Money” emenda-se com “Sun King”, de Lennon, com sons de sinos, pássaros e outros efeitos entre as duas. Nesta última, como em “Because”, John, Paul e George cantam em uníssono.

Em seguida vêm “Mean Mr. Mustard e Polythene Pam”, de Lennon, em bloco com a divertida “She Came in Through the Bathroom Window”, de autoria de Paul. Aparecem, então, outros destaques de Mccartney, já quase fechando o disco: “Golden Slumbers e Carry That Weight”.

A primeira, Paul compôs na casa do pai, após olhar algumas partituras que estavam no piano de sua meia-irmã. Uma delas trazia o acalanto de mesmo nome, do poeta renascentista inglês Thomas Dekker, uma obra de 1600. Paul aproveitou os versos e compôs a música.

“Carry That Weight” (“Carregue Esse Peso”), assim como “You Never Give Me Your Money”, era uma das canções semi-autobiográficas de Paul sobre as dificuldades financeiras dos Beatles que ocorreram após a morte do empresário Brian Epstein em 1967. Os quatro garotos de Liverpool simplesmente não tinham capacidade de administrar os negócios da banda e a morte de Epstein deixou-os perdidos. Além do desgaste advindo da relação muitas vezes conturbada entre eles, este era mais um fardo a carregar.

Mixada com o último acorde de “Carry That Weight” aparece “The End” (“Fim”), música com pouco mais de 2 minutos, que traz um solo de bateria de 16 segundos de Ringo Starr – o único entre todas as músicas gravadas pelo quarteto. Em seguida, John, Paul e George se revezam em solos de guitarra até que, após uma entrada de piano, vem a frase “and in the end, the love you take is equal to the love you make” – em tradução livre, “e no final, o amor que você tem é igual ao amor que você proporciona”. Seria esta a mensagem final deixada em discos gravados dos Beatles se não fosse a música “acidental” “Her Majesty” que fecha o álbum. Poderia ter sido excluída.

Divagações

“Abbey Road”, ao lado de “Lei It Be”, encerra a carreira dos Beatles. Nenhum deles tinha chegado aos 30 anos quando os álbuns foram lançados – George Harrison, o mais jovem, tinha 26. Havia um abismo entre os primeiros discos e os derradeiros – uma evolução e amadurecimento que, em certa medida, faz parecer com que a banda de 1969 fosse outra – bem diferente da que lançou “Please Please Me” em março de 1963.

O que mais poderiam ter produzido se continuassem juntos mais algum tempo?

Ou o final no auge foi o melhor que poderia ter ocorrido?

Para comemorar os 50 anos do “Abbey Road”, o Roque Reverso descolou clipes, vídeos e versões remasterizadas no YouTube. Fique inicialmente com um vídeo ao vivo de John Lennon, já na carreira solo, cantando “Come Together” em Nova York. Depois, fique com o clipe da música “Something”, uma versão remasterizada, de 2019, de “Oh! Darling”, um vídeo ao vivo de Ringo Starr com “Octopus’s Garden” e outro de George Harrison cantando “Here Comes the Sun”. Na sequência, ouça uma versão remasterizada de “Because” de 2009 divulgada pela banda. Fique com a execução ao vivo realizada por Paul McCartney em 2013, no Japão, da sequência com “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”. Para fechar, fique com uma lista feita pela conta da própria banda no YouTube que traz o álbum completo, com direito a vídeo para “Come Together” e ainda um vídeo especial para “Here Comes a Sun”, com data de lançamento agendada especialmente para este dia 26 de setembro de 2019.

*Roberto Carlos dos Santos é jornalista da Agência Estado e amante do bom e velho rock n’ roll

3 Responses to “50 anos do essencial e memorável ‘Abbey Road’, clássico álbum dos Beatles”


  1. 26 de setembro de 2019 às 09:38

    São muitos os álbuns bons, mas, para mim, este é o melhor e o que mais gosto.
    Banda madura, criativa e melodiosa, sem perder a pegada rock e várias músicas.
    Belo texto, Betão!
    E obrigado novamente!

  2. 2 Caio De Mello Martins
    26 de setembro de 2019 às 17:07

    Abbey Road tem cara de despedida, e é maravilhoso!!! “The End” ainda me faz querer chorar. Essa sacada do autor sobre como cada beatle compôs e desabrochou separadamente é chave. Afinal estamos falando de John, Paul, George e Ringo. Mesmo com a banda se despedaçando, os caras tocam o sublime. Muito bom ler e relembrar esse álbum faixa por faixa – pode ser mesmo q George Martin esteja certo!

  3. 3 Adriana
    6 de outubro de 2019 às 23:21

    Roberto, parabéns! Você é fera e seu texto está incrível! 😀


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