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50 anos do inovador ‘Revolver’, clássico álbum dos Beatles

"Revolver" - Reprodução da capaPor Roberto Carlos dos Santos*

“Revolver”, uma das mais importantes obras dos Beatles, completa 50 anos em 2016. O sétimo álbum do grupo inglês foi lançado no dia 5 de agosto de 1966 no Reino Unido e três dias depois nos Estados Unidos.

Os Beatles já haviam demonstrado seu amadurecimento musical e a busca por novas sonoridades em “Rubber Soul”, lançado pouco tempo antes, no final de 1965. “Revolver” mostrou-se ainda mais inovador.

Entre as novidades estava a entrada definitiva dos Fab Four no mundo do psicodelismo e do LSD com “Tomorrow Never Knows”, de John Lennon, e a paixão escancarada de George Harrison pela música indiana em “Love You Too” – sentimento que o guitarrista manteve durante toda sua carreira.

Paul McCartney trouxe a vibrante “Got to Get Into My Life”, com seus metais e inspiração na soul music americana, e as baladas “Here There and Everywhere” e “For no One” – além da enigmática “Eleanor Rigby”.

Inicialmente, os quatro concordaram que o nome do novo álbum seria “Abracadabra”, mas foram avisados de que já existia outro disco com o mesmo título. As sugestões de batismo foram muitas: passaram pela pouca inspirada ideia de Paul – “Rock in Roll Hits of ’66” – até “Beatles on Safari”, proposta de John que também não arrancou suspiros de ninguém. Paul propôs “Magic Circle”, que John desvirtuou sugerindo “The Four Sides of The Circle”.

Após algum tempo de discussão, Paul sugeriu “Revolver”, prontamente aceito por todos. O nome não tem relação com a arma de fogo, mas sim com o movimento de rotação – de um disco, por exemplo – ou, segundo outra interpretação, a renovação de ideias.

A capa foi criada por Klaus Voormann, amigo dos Beatles desde a fase inicial do grupo em Hamburgo (Alemanha), anterior à fama. Trazia uma ilustração feita com desenhos e colagens de fotos do fotógrafo Robert Whitaker e ganhou o Prêmio Grammy de 1967 como melhor capa.

Harrison emplacou três composições suas em “Revolver” e, pela primeira vez, abriu um álbum dos Beatles com uma música sua, “Taxman” – uma crítica aos enormes impostos ingleses cobrados de pessoas com altos rendimentos. A canção coloca George no nível de Lennon/McCartney, a dupla oficial de compositores da banda.

A música traz guitarras duplicadas, com Paul tocando o instrumento ao lado de George, criando uma sonoridade inédita, bem diferente das feitas até então pelo grupo. A canção, por sinal, rendeu, mais de 20 anos depois, uma regravação do gênio da guitarra Stevie Ray Vaughan.

Em “Love You Too”, George é o único a participar da gravação, feita com o uso de tabla e cítara, instrumentos indianos. “I Want To Tell You” também traz a assinatura de Harrison.

Entre as composições de destaque de John Lennon no álbum está “I’m Only Sleeping”, e “She Said, She Said”, que traz na letra referências ao LSD. Durante uma turnê nos EUA em 1965, os Beatles fizeram uma festa em Bel Air, Califórnia, com a participação de Roger McGuinn e Dave Crosby, do The Byrds, e do ator Peter Fonda, entre outros.

Eles aproveitaram a ocasião para tomar LSD. Após ingerir a droga e sentir seus efeitos, George disse a Fonda achar que estava morrendo. O ator, veterano no campo das viagens lisérgicas, acalmou George dizendo que bastava relaxar e que não havia o que temer. Contou que quase morrera quando criança em uma sala de cirurgia e que conhecia a sensação. “I know what it’s like to be dead” (“Sei como é estar morto”). John guardou a frase e a colocou na música.

Na biografia autorizada “Many Years From Now”, escrita por Barry Miles, Paul McCartney conta que gostava muito da canção, mas que não teve participação nela. Ele teve uma discussão com John e deixou o estúdio. Segundo ele, George provavelmente foi o baixista na gravação da faixa.

“I’m Only Sleeping” revela a face impaciente de Lennon e o gosto em compor letras em primeira pessoa: “Please, don’t spoil my day/I’m miles away/and after all/I’m only sleeping” (“Por favor, não estrague o meu dia/eu estou a milhas daqui/e além de tudo/eu estou apenas dormindo”), escreveu. O solo de guitarra de George foi gravado de trás para a frente, soando como algo totalmente inédito.

Mas a canção mais revolucionária do disco é “Tomorrow Never Knows”. A composição de Lennon, que também revela forte influência da música indiana, tem sua estrutura harmônica variando sobre o acorde Dó Maior – assim como músicas da Índia feitas em uma corda só.

A gravação exigiu muito trabalho de estúdio. Lennon disse ao produtor George Martin que queria que sua voz soasse como a de “um dalai lama cantando no alto da montanha”, efeito que Martin conseguiu passando os vocais de John pelo auto-falante Leslie do órgão eletrônico Hammond. Tais auto-falantes giram dentro de um gabinete para produzir um efeito de zunido. A manobra deu o efeito especial que Lennon buscava.

Os efeitos de guitarra foram contribuição de Paul. Ele gravou em várias fitas uma coletânea de loops, variando às vezes suas extensões. Na gravação, foram usados cinco toca-fitas para reproduzi-los. George Martin criou uma montagem de loops, aumentando e diminuindo gradualmente o som, sobrepondo e repetindo partes. A batida de Ringo Starr, sincopada, é considerada uma percussora do ritmo da música eletrônica.

Martin disse, depois, que aquela era a única música dos Beatles que não poderia jamais ser reproduzida, dada a complexidade e os improvisos durante a gravação.

Na letra, Lennon tenta destilar uma viagem de LSD e toma emprestado trechos da versão de Timothy Leary do “Livro Tibetano dos Mortos”. Ícone dos anos 60, o professor de Harvard e neurocientista defendia os benefícios terapêuticos e espirituais do ácido.

“Eleanor Rigby” seria o nome de uma mulher que morreu por volta dos 40 anos enquanto dormia, segundo dizia a lápide de um cemitério no sul de Liverpool. Paul diz que é uma música feita para gente solitária, como “aquela velha faxineira da igreja” que ninguém nota.

A canção, assim como “Yesterday”, não teve participação dos outros Beatles tocando instrumentos. Paul a canta acompanhado de quatro violinos, duas violas e dois cellos.

“Here, There and Eyerywhere” se tornou mais um clássico de Paul. A música, feita para a sua namorada na época, Jane Asher, é uma das suas preferidas e traz uma elegante sobreposição de vozes de McCartney na gravação. “O pessoal do jazz costumava escolhê-la porque gostava dos acordes”, disse o baixista na sua biografia. Lennon, que teve pequena participação na composição, também a apreciava muito. “É uma das grandes canções de Paul”, disse em entrevista à “Hit Parader”.

“For no One” foi composta em março de 1966, quando Paul passava férias na Suíça com Jane Asher. Curiosamente, Paul e Ringo são os únicos da banda presentes à gravação, na qual Paul tocou baixo, piano e cravo. Escolhido a dedo por George Martin, Alan Civil, que depois se tornaria o principal trompista da Grã-Bretanha, faz o solo do instrumento de sopro.

“Yellow Submarine” é uma canção infantil composta por Paul e interpretada por Ringo. McCartney disse em sua biografia ter tido a vontade de compor uma música para crianças. Para tanto, pensou inicialmente em um brinquedo – e o que veio à sua cabeça foi a imagem de um submarino amarelo.

Daí desenvolveu a história de um velho marinheiro que conta às crianças suas experiências. A música é repleta de efeitos sonoros feitos pelo próprio grupo e por convidados no estúdio (sirenes, latas arrastadas e borbulhar de água em uma bacia, por exemplo). Tornou-se depois um desenho animado e tema de novo LP dos Beatles, que levava o nome da canção e trazia no Lado B canções orquestradas compostas por George Martin.

Voltando a “Got to Get Into My Life”, vale lembrar que a canção de Paul foi feita após ele experimentar maconha. “Eu meio que gostei da maconha desde que a experimentei”, diz Paul em sua biografia. “Não tive nenhuma fase ruim nisso e, para mim, ela ampliou os limites da mente (…). Na realidade, é uma ode à maconha, da mesma forma que outras pessoas podiam fazer uma ode ao chocolate”, disse o baixista.

Completam o álbum “Good Day Sunshine”, escrita por Paul, marcada por um ótimo acompanhamento no piano, “And Your Bird Can Sing”, de John, que traz um riff de guitarra memorável, e “Doctor Robert”, também composta por Lennon, que fala sobre um médico que receitava anfetaminas a pacientes famosos.

Além da genialidade dos Fab Four, “Revolver” também carrega uma importante inovação técnica que deve ser creditada a Geoff Emerick, engenheiro de som da EMI que trabalhava com George Martin.

Conservadora e repleta de regras técnicas, a EMI não permitia a utilização de microfones próximos aos instrumentos e amplificadores, alegando que os equipamentos poderiam ser danificados devido à sua sensibilidade. Emerick resolveu que a regra deveria ser quebrada: aproximou os microfones de todos os instrumentos – sobretudo da bateria – e conseguiu um timbre até então desconhecido nos discos dos Beatles.

A gravadora vetou a mudança, mas o quarteto havia adorado a nova sonoridade. Em uma reunião com a direção da EMI, Paul foi o porta-voz do grupo e deu um ultimato: “De agora em diante esse é o nosso som. Ou será assim, ou não será de nenhum outro jeito”, afirmou. A gravadora, evidentemente, capitulou.

“Revolver” ocupa a terceira posição na lista dos “500 melhores álbuns de todos os tempos” da revista “Rolling Stone”. Entre as obras do quarteto inglês, só perde para o mítico “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que foi lançado menos de um ano depois, em 1º de junho de 1967, e encabeça a relação.

O quinto colocado da lista é justamente “Rubber Soul”, que foi lançado em 3 de dezembro de 1965. O fato de as três obras, lançadas em um intervalo pouco superior a 18 meses, estarem entre as cinco primeiras posições da lista da cultuada revista americana é um indicativo do momento de explosão criativa da banda na época. Esta mesma incrível intensidade revelou, um pouco mais tarde, que não seria possível aos Beatles ter uma vida longa como grupo.

Para relembrar o álbum “Revolver”, o Roque Reverso descolou vídeos no YouTube. Mais uma vez, tal qual o observado no texto sobre o disco “Rubber Soul”, note que, na época, videoclipes eram algo incomum. Justamente por isso, há muitas montagens dos fãs e vídeos não oficiais e até lyric videos montados.

Fique inicialmente com “Taxman”. Depois, continue com “Eleanor Rigby”, “Here, There and Everywhere” e “Yellow Submarine”. Para fechar, “Tomorrow Never Knows”.

*Roberto Carlos dos Santos é jornalista da Agência Estado e amante do bom e velho rock n’ roll
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1 Response to “50 anos do inovador ‘Revolver’, clássico álbum dos Beatles”


  1. 11 de agosto de 2016 às 14:21

    Mais uma aula de graça sobre Beatles!
    Muito legal!


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