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50 anos do disco ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’, um dos maiores da história e símbolo de uma geração

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Reprodução da capaPor Roberto Carlos dos Santos* 

Alguns álbuns são tão icônicos que se tornam retratos do trabalho dos seus autores. Pode-se dizer que “Dark Side of the Moon” é a grande representação do Pink Floyd – ok, alguns dirão que é “The Wall”. “Thriller” marcou para sempre a obra de Michael Jackson. Poderíamos fazer aqui uma longa lista de discos absolutamente marcantes, históricos. Mas quantos discos, ou até mesmo algumas obras artísticas,  representam uma geração? Poucos. “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, dos Beatles, que está completando 50 anos, está nesta categoria.

A oitava obra do quarteto de Liverpool foi lançada no dia 26 de maio de 1967 na Inglaterra e no dia 2 de junho do mesmo ano nos Estados Unidos.

Inovador desde a concepção gráfica da sua capa até sua produção e composições, o disco ficou no topo das paradas inglesas por 27 semanas e ganhou 4 prêmios Grammy em 1968, incluindo o título de “Álbum do Ano”. Segundo alguns críticos, elevou a música pop ao nível de arte.

Os Beatles vinham experimentando um período de grande criatividade e emplacando obras memoráveis. Em menos de dois anos, colocaram no mercado “Rubber Soul” (dezembro de 1965), “Revolver” (agosto de 1966) e “Sgt. Pepper´s”. Os dois primeiros – cujas resenhas comemorativas você pode ler aqui mesmo no Roque Reverso – já traziam inovações que balançaram os alicerces do cenário musical. O último mudou conceitos. A revista Time, por exemplo, considerou o LP “uma evolução histórica no progresso da música – qualquer música”.

A banda havia abandonado as turnês em 1966 e, cada vez mais, se dedicava às gravações de estúdio. E, mais do que isso, estava experimentando uma nova fase na carreira, tentando deixar para trás o estilo juvenil dos primeiros discos.

A ideia, do álbum, segundo Paul McCartney, surgiu em um safári que ele fez no Quênia. Ao voltar para Londres em novembro de 1966, Paul iniciou, no longo voo de volta, a concepção do novo disco. A proposta era criar uma nova identidade para os Beatles: deixando de ser os Fab Four, poderiam fazer coisas novas e experiências para mostrar que o quarteto havia chegado à idade adulta.

“Estávamos cansados de ser os Beatles, detestávamos aquela coisa de nos considerarem meninos”, diz Paul na autobiografia autorizada “Many years from now”, escrita por Barry Miles. “Nos achávamos artistas, e não simplesmente intérpretes. E, no avião, tive essa ideia: vamos deixar de ser nós mesmos, vamos devolver alter-egos para não projetar as personas que conhecemos”. Dessa forma, na avaliação do baixista, eles se tornariam mais livres. Ao chegar a Londres, Paul apresentou ao grupo sua ideia, prontamente aceita. Surgiu aí a “Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”.

Com a produção de George Martin e com Geoff Emerick como engenheiro de som, a gravação do álbum foi concluída em 21 de abril de 1967. A capa, com os Beatles posando ao lado de celebridades e figuras históricas, foi feita pelos artistas pop britânicos Peter Blake e Jann Haworth.

Para a escolha dos personagens da capa, Paul conta que sugeriu aos colegas que apontassem seus ídolos – que poderiam ser de jogadores de futebol a cientistas. Assim foi feito. O sempre rebelde John Lennon sugeriu incluir Jesus e Hitler, mas a EMI não deixou.

Naquela fase efervescente dos nos 60, o publico queria mais que as baladas e os rocks que até então faziam sucesso. O estilo psicodélico, que os Beatles já haviam experimentado, emergia em grupos como o The Doors e outras bandas de São Francisco.  Sem turnês e com tempo livre – algo até então raro para o grupo – e com o poder que tinham, os Beatles puderam se dedicar integralmente ao novo desafio.

Com o disco pronto, veio a constatação: os Beatles tinham conseguido catalisar o sentimento de uma época – algo reservado a gênios do quilate de Bob Dylan. Nas canções, reuniram os anseios e inquietações da geração Flower Power.

O disco é iniciado com a faixa-título, que começa com sons combinados de uma orquestra ensaiando e uma platéia, induzindo à ideia de que se trata de uma apresentação ao vivo. Paul atua como mestre de cerimônias no trecho final da faixa, introduzindo Ringo Starr como um alter-ego chamado Billy Shears. Emendada, vem a célebre “With a Little Help from My Friends”.

Esta canção evoca o sentimento de solidariedade e companheirismo muito presente nos jovens dos anos 60, ao passar a ideia de que “tudo conseguirei com a ajuda dos meus amigos”. Não por acaso, Ringo – o mais acanhado artisticamente do quarteto – é escolhido para cantar a música. Símbolo da época, a canção teve uma espetacular versão gravada mais tarde por Joe Cocker – e interpretada de forma inesquecível no Festival de Woodstock, em outro momento histórico do rock.

A faixa número três é “Lucy in the Sky with Diamonds”, que, a despeito da forte suspeita de que seria uma referência ao LSD, sempre foi explicada por John Lennon como uma inspiração surgida de um desenho feito pelo seu filho Julian, que tinha 4 anos na época – fato confirmado por Paul. A letra, porém, é lisérgica e repleta de descrições imaginárias, ressaltando seu aspecto psicodélico.

Em seguida vem “Getting Better”, que abandona o estilo psicodélico e adota o estilo mais efervescente e de rock & roll puro. Esta faixa – como algumas outras presentes na história dos Beatles – traz a oposição dos estilos da genial dupla de compositores Lennon/McCartney: Paul, sempre mais doce e otimista, canta “I’ve got to admit it’s getting better’ (“Eu tenho que admitir, está ficando melhor”), enquanto John, numa réplica sarcástica e ácida, bem ao seu estilo, solta a frase “it can’t get more worse” (“não poderia ficar muito pior”).

A faixa seguinte é “Fixing a Hole”, de autoria de Paul McCartney, Segundo diz em sua biografia, vinha do desejo de consertar as coisas, mas também de estar livre, deixar a mente viajar para poder fazer o que quiser. Muitos interpretaram como uma ode à heroína por causa do termo “to fix heroine” (“injetar heroína na veia”), mas Paul afirma que jamais pensou nisso.

“She’s Leaving Home”, música de número 6 do Lado A, é uma composição de rara beleza escrita por Paul McCartney, que fala do conflito de gerações. Uma garota, triste e solitária, foge de casa para viver com um homem, causando indignação dos pais, “que deram a ela tudo que o dinheiro podia comprar”. Sem bateria ou guitarras, a canção traz harpa e um conjunto de cordas – da mesma forma que “Yesterday” e Eleanor Rigby”. Segundo Paul, a inspiração veio de  uma reportagem do “Daily Mail” sobre as fugas de adolescentes de suas casas.

Fecha o lado A do disco “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, composição de Lennon.

George Harrison abre o lado B com “Within You Without You”. Inspirada em música clássica hindu, a canção é mais uma viagem do guitarrista dos Beatles pelo terreno da música oriental – algo que permeou boa parte da sua carreira na banda inglesa e seus discos solo.

“When I’m Sixty-Four”, de McCartney, é uma música leve e de tom humorístico, marcada pelo acompanhamento de clarinete e piano. Paul diz em sua biografia que havia composto a melodia aos 16 anos e a adaptou “num estilo de música às antigas”.

Na canção, Paul discorre sobre como seria a vida aos 64 anos. Estaria endereçada aos mais velhos, que não conseguiam entender a cabeça dos jovens dos anos 60?

Vem, em seguida, “Lovely Rita”, também de Paul McCartney. É uma canção divertida e bem arranjada, mas uma das faixas menos inspiradas do álbum.

“Good morning, good morning” era de autoria de John e inspirada no comercial dos sucrilhos Kellogs. Lennon relata na canção o tédio que todos acabam sofrendo em suas vidas. Paul diz, na sua biografia, que ele estava se sentido encurralado pelo cotidiano e passando por um momento conturbado com a esposa, Cynthia.

Participa da gravação uma banda de metais de Liverpool chamada “Sounds Incorporated”.Os Beatles também resolveram utilizar na faixa diversos efeitos sonoros. No final, o cacarejar de uma galinha se funde com a nota de guitarra da faixa seguinte, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise)”.

A ideia de reprisar a música que dá nome ao disco partiu do produtor musical Neil Aspinall, que sugeriu: já que eles haviam iniciado o disco com o convite da banda do “Sargento Pimenta” para participar do show, por que não terminá-lo com a despedida da banda? Os quatro adoraram a proposta. A música utiliza a mesma melodia da canção inicial, mas em ritmo rápido. Esta era pra ser a última música do álbum, mas o acorde final de “A Day In The Life” causou uma mudança nos planos. Depois da festa, vem a reflexão.

A composição idealizada por John Lennon que encerra o disco mereceria uma resenha à parte. A canção é, na verdade, a junção de músicas de John e Paul. Lennon inicia a música relatando o noticiário do jornal “Daily Mail”, citando um figurão – o jovem herdeiro da cervejaria Guinness – que morreu em um acidente de carro e temas como buracos nas ruas. Cita também um filme que tinha assistido e no qual o exército inglês havia vencido a guerra. A letra se desenvolve num universo onírico, bem ao seu estilo de compor.

No meio da música entra a parte composta por Paul – que estaria tentando completar uma canção que ainda não tinha seu começo. A letra remete a alguém que acorda, toma um café da manhã e sai apressadamente para o trabalho. Ao entrar no ônibus, fuma e começa a sonhar.

Ao final do trecho de Paul, John retorna com sua canção.Vale a pena ressaltar a menção às drogas: o início do sonho no ônibus descrito por Paul pode ser interpretado como uma “viagem” após fumar um cigarro de maconha. Uma das frases de Lennon, que explorava o LSD na época, é “I’d love to turn you on”  (“Eu adoraia te deixar ligada”). Paul opina, em sua biografia, que a frase “blew his mind”, referente ao jovem que teria “estourado sua cuca” no acidente, também seria um jogo de palavras de John para falar da expansão da mente com o uso de drogas.

Paul queria uma grande orquestra para a gravação da música e pediu uma com 90 músicos. George Martin o alertou sobre a insensatez do pedido e o convenceu a usar uma de 40 músicos. A orquestra foi regida por McCartney e Martin.

Nos trechos após a frase “I’d love to turn you on”,  Paul pediu que os músicos partissem das notas mais baixas de seus instrumentos e passassem por outras notas (não necessariamente todas) até chegar às mais altas – e que escolhessem a velocidade com que queriam fazer isso. Inicialmente, os músicos não entenderam direito o pedido inusitado, mas, após algumas explicações, entraram no clima. Como resultado final, surgiram dezenas de segundos de acordes de uma orquestra de 40 instrumentos tocados em crescendo. A gravação, depois foi, quadruplicada. O acorde final, feito por três pianos, foi amplificado de forma brutal, o que fez com que se sustentasse por 45 segundos.

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” é o número 1 da lista dos 500 melhores discos de todos os tempos da revista “Rolling Stone”. “É o mais importante álbum de rock & roll já feito, uma insuperável aventura em conceito, som, letras, arte de capa e tecnologia de estúdio feita pelo maior grupo de rock de todos os tempos”, diz a publicação ao apresentar a obra vencedora do ranking.

Para celebrar e relembrar o clássico disco, o Roque Reverso descolou vídeos e clipes no YouTube, lembrando que achar material dos Beatles é sempre uma missão ingrata na internet. Fique inicialmente com um vídeo das músicas “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “With a Little Help from My Friends” que traz Paul e Ringo na cerimônia do Grammy, em 2014, que marcou os 50 anos da primeira aparição da banda na TV norte-americana. Na sequência, veja Paul, em Tóquio, também em 2014, tocando ao vivo “Lovely Rita” e “Being for the Benefit of Mr. Kite!”. Para fechar, fique com o clipe de “A Day in the Life”.

Como o álbum é um megaclássico, ainda descolamos interpretações históricas de outros gigantes da música para canções do “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Veja Elton John, em 1975, com “Lucy in the Sky with Diamonds” e Joe Cocker, em Woodstock, com “With a Little Help from My Friends”.

*Roberto Carlos dos Santos é jornalista da Agência Estado e amante do bom e velho rock n’ roll
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2 Responses to “50 anos do disco ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’, um dos maiores da história e símbolo de uma geração”


  1. 31 de maio de 2017 às 16:45

    Não é o meu preferido, mas é inegável sua importância histórica para a cultura como um todo!
    Parabéns pelo texto, Beto!
    Mais uma aula grátis de Beatles!!!!

  2. 2 Ricardo Gozzi
    1 de junho de 2017 às 10:58

    Betão, excelente resenha para um dos discos mais sensacionais de todos os tempos. Com Sgt. Peppers, os Beatles praticamente inauguraram o álbum como um conceito, algo que seria levado ao estado da arte nas décadas seguintes, antes de a música digital avulsa tomar conta.


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