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jan
15

Mais do que um ataque à liberdade de expressão, atentado em Paris foi ato de violência ao ser humano

Foto: France Presse/Divulgação FacebookEra pra ser uma reunião de pauta como outra qualquer. Profissionais de mídia perdem rápido a conta das reuniões de pauta a que precisam ir. O que o pessoal da redação da Charlie Hebdo não contava era com a estupidez humana. Na realidade, até contava, já que a estupidez humana é um excelente tempero para a sátira – e a revista vive exatamente disso. O que eles fizeram foi subestimar a estupidez humana.

Uma pseudoinvestigação terminou na velocidade de um raio. Bastou alguém ouvir os assassinos gritarem “Allahu Akbar” e o veredicto já estava pronto.

A sentença, porém, não recai sobre os autores materiais do crime, e sim sobre grupos sistematicamente criminalizados pela mídia.

Antes que algum apressadinho ou engraçadinho se preste a pensar ou falar bobagem, estamos falando de um injustificável assassinato em massa e o fato de os profissionais da revista terem subestimado a estupidez humana não deve ser usado para responsabilizar as vítimas pela própria desgraça, como muita gente gosta de fazer. Mas não é por se tratar de algo injustificável que seja incompreensível.

A mídia ocidental já acusou, julgou e condenou o Islã e os islâmicos em geral pelo massacre. Fora de contexto, claro. É como se não houvesse ocupação dos territórios palestinos por Israel, é como se os Estados Unidos e a Inglaterra não tivessem invadido o Iraque de olho no petróleo, é como se as potências ocidentais nunca tivessem articulado golpes e guerras para impor a outros povos seus fantoches e seus interesses sob o pretensioso e esfarrapado pretexto da civilização. Haja espaço para citar exemplos.

Não se faz democracia com bombas. Interferências externas costumam deslegitimar movimentos de libertação. Mais ainda: não se faz civilização com barbárie.

Mais do que um ataque à liberdade de expressão, o atentado contra a Charlie Hebdo foi um ato de violência contra o ser humano, assim como os assassinatos de John Lennon e Dimebag Darrel (Pantera), as bombas de Hiroshima e Nagasaki, o extermínio de populações indígenas, os atentados de 11 de Setembro, a ocupação da Palestina, o Holocausto dos judeus, a Islamofobia na Europa, as centenas de milhares de iraquianos, afegãos e cidadãos de outras nacionalidades aniquilados em bombardeios ocidentais aleatórios pelo mundo, ou ainda as vítimas dos crimes passionais, dos crimes de ódio, dos ataques a homossexuais, da violência contra a mulher, dos crimes por motivos fúteis, dos esquadrões da morte da polícia na periferia das grandes cidades brasileiras. E é aqui que o bicho pega.

Nada disso é isolado, por mais que muitos prefiram pensar que seja. Tudo se insere no mórbido culto do ser humano à violência em uma busca absurda e inexplicável por soluções supostamente definitivas.

Ser contra a violência, venha esta de onde vier, é ser contra qualquer tipo e qualquer forma de violência. Enquanto o ser humano continuar condenando a violência contra si e contra os seus ao mesmo tempo em que busca justificativas frágeis para a violência contra os outros, a barbárie vai prevalecer.

O mais incrível é que, ao que tudo indica, a humanidade assim se comporta desde os primórdios da dita civilização. Milênios se passaram e o ser humano insiste em não correr o risco de viver em paz e harmonia, respeitando as diferenças e com elas convivendo, apesar de manifestar da boca pra fora esse ainda utópico desejo.

Todas as velhas fórmulas fracassaram. Ao arriscarmos com sinceridade algo diferente, o pior que pode acontecer é não dar certo de novo e a subestimada estupidez humana continuar a prevalecer, mas haverá pelo menos a chance de dar certo.

Para isso, claro, todos precisariam se engajar, mas a chance de isso funcionar aumenta se a iniciativa partir do mais forte.

O Roque Reverso presta aqui sua homenagem às vítimas nos dois lados com músicas descoladas no YouTube. Fique com “Give Peace a Chance”, de John Lennon, “Society”, de Eddie Vedder, e “Killing an Arab”, do The Cure, e “Natural Mystic”, de Bob Marley.


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Curtas do Roque Reverso -> Para você que está pensando em ir ao aguardado show que o Greta Van Fleet realizará em São Paulo na Audio, uma notícia nada boa: os ingressos estão já no terceiro lote e saltaram do valor inicial de R$ 220,00 (https://roquereverso.com/2019/02/04/greta-van-fleet-snow-patrol-e-outras-bandas-tocarao-nas-lolla-parties-em-sp/) para inacreditáveis R$ 320,00 (inteira). Integrantes da equipe do Roque Reverso se deslocaram por volta das 13h30 (horário de Brasília) deste sábado, 9 de fevereiro, ao longínquo Credicard Hall, na zona sul da capital paulista, e tiveram esta nada agradável "surpresa", ao tentar fugir das famigeradas taxas de conveniência e entrega. Obviamente, como não temos carteirinha de estudante (e não adotamos mecanismos fora dos meios legais para adqui-la), como não existe facilidade alguma (como parcelamento ou coisa parecida) e como tivemos a sensação de "assalto", decidimos não comprar. Tudo porque há uma linha divisória clara entre ser fã de uma banda e ser trouxa. Sabemos que o Greta Van Fleet é uma ótima banda, que é uma promessa cada vez mais clara de algo bom e duradouro para o rock n' roll e que, muito provavelmente, vai ganhar um ou mais prêmios Grammy na cerimônia do domingo, nos Estados Unidos. Mas os organizadores de shows brasileiros vêm abusando demais em relação aos preços de ingressos de quem só pode pagar entrada inteira.Resta a cada fã se sujeitar ou não a estes abusos. Com este caso relatado e com as últimas negativas de credenciais de imprensa que o Roque Reverso vem recebendo da assessoria de imprensa da Time For Fun (suspeitamos de retaliação por fazermos nossas habituais criticas jornalísticas nas resenhas de shows), é muito provável que este veículo de imprensa fique fora das coberturas dos shows do Greta Van Fleet, tanto do Lollapalooza Brasil, como do show na Audio pelas Lolla Parties. É muito triste especialmente para nós, que fomos um dos primeiros veículos brasileiros a falar da banda e o primeiro do País a publicar uma entrevista exclusiva com os integrantes. Não desistiremos tão fácil de ir, mas avisamos nossos queridos leitores do ocorrido. #roquereverso #gretavanfleet

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