
Por Luis Eduardo Leal*, especial para o Roque Reverso
1966, como todo ano, começou em janeiro, e em 29 de janeiro de 1966 nasceu o baixinho, Romário, o gênio da área e também fora dela, que tantas alegrias nos deu em 1994 e em anos além – parabéns, craque! Para o pop rock global, nos meses à frente, 1966 marcará também o 60º aniversário de três marcos discográficos, de três nomes gigantes, estelares, que tantas alegrias deram e continuam a dar aos admiradores da bela música.
Em 1966, vieram a lume “Blonde on Blonde”, de Bob Dylan, em junho; “Pet Sounds”, dos Beach Boys, um mês antes, em maio; e last, but not least, “Revolver”, dos Beatles, pouco depois, em agosto – o álbum que Lennon & Paul ficaram em dúvida se deveriam lançar ou não, meses depois de travarem conhecimento com o que trazia “Pet Sounds” em beleza e harmonia.
Realmente, “God Only Knows”, para mim e como para tanta gente, é algo praticamente insuperável em beleza harmônica: vozes e melodias que chegam do céu. Para ficar apenas em um exemplo, é um dos pontos altos de “Pet Sounds”, entre tantos.
A manutenção de “Revolver” e a sequência da carreira deram resultado na “disputa” harmônica entre os dois grandes grupos, e como alimento à admiração recíproca com Brian Wilson: a resposta seguinte dos Beatles foi, nada menos, do que “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967), álbum cultuado pelo gênio dos Beach Boys – e por tantos mortais, como eu.
Não me deterei em “Revolver” e “Pet Sounds”, dois marcos incríveis já resenhados aqui no Roque Reverso entre os ícones de todos os tempos. Vamos então a “Blonde on Blonde”, de Dylan, que possivelmente forme com Brian Wilson e Lennon & Paul a tríade fundamental, incontornável, dos anos 60.
E dentro dos 60, 1966 foi apenas um de diversos anos milagrosos. Sem hierarquia e ordem cronológica aqui, e passando agora ao grande bardo, Bob Dylan, que em 1966, o ano de “Blonde on Blonde”, estava sendo tratado muito mal pelos fãs, ao trocar, um ano antes, o violão pela guitarra em “Highway 61 Revisited”. O ano de 1966 foi o da ruidosa turnê pela Inglaterra, onde ouviu de supostos fãs, durante as apresentações, gritos de traidor e Judas. Dylan é conhecido pela ojeriza a rótulos e, sintomaticamente, disse que sua música não precisaria ficar entre o folk e o folk rock do inflamado debate público: poderia, se preferissem, ser simplesmente tratada como “música arsênica”.
“Blonde on Blonde” entrega joias conhecidas do repertório dylanesco como “Rainy Day Women”, com seu refrão supostamente hippie (“Todo mundo tem que ficar chapado”, será mesmo?), a belíssima “Visions of Johanna” e a minha preferida, talvez menos votada, “I Want You”, em que associa metáforas sofisticadas e lindamente obscuras, como de hábito, ao urgente ‘te quiero’ insofismável que todo amante pretende sussurrar algum dia no ouvido da amada. “Tanto”, do Skank, é uma bela versão em português (de Chico Amaral) que faz justiça ao original.
Um crítico certa vez observou que Dylan transforma o que poderia ter sido uma simples canção de amor, com um refrão curto, direto e obsessivamente repetido, em uma espécie de símile do cérebro sobrecarregado pelo desejo, em que tudo que é exterior ao passional se torna incompreensível e sem tanta importância. Dito de outra forma, a ruptura da racionalidade quando o foco está no interesse único da consumação do amor. Ou como talvez colocasse Schopenhauer, o materialismo estrito da natureza que a tudo determina por debaixo da ilusão, o véu de Maya, da individuação. Você é movido, não se move.
Baita poeta esse Dylan (consta que como marido, nem tanto: recorria a seus superpoderes poéticos para pegar geral, o que o alinharia entre os maiores traidores da história do rock, com atitudes fora da caixa como levar uma amante para tomar café da manhã com a família). Ao fim, Schopenhauer talvez tenha razão em sua visão de mundo nada romântica. Deixando a biografia de lado e me atendo à obra – o que de fato importa na arte, a única forma de suspensão do sofrimento da vida como nos lembra o velho Schop -, “Blonde on Blonde” espalha pérolas por duas grandes bolachas: foi o primeiro duplo de Dylan.
Em um trabalho tão extenso, difícil deixar a biografia totalmente de lado. Como em tantos clássicos do repertório de Bob, há uma série de teorias e interpretações sobre as referências ocultas em versos como “Your dancing child with his chinese suit” (talvez Brian Jones, dos Stones, que teria levado a melhor no cortejo da adorada porque o “tempo estava do lado dele”), em “I Want You”. Ou em homenagens de canção inteira, como Just Like a Woman, que teria como inspiração outra mulher, uma modelo da turma de Andy Warhol, Edie Sedgwick.
A loura seria também a ideia para o título do álbum, e com quem Dylan esteve envolvido, aproximadamente, na mesma época. O relacionamento terminou quando Sedgwick descobriu que Dylan tinha se casado em segredo com Sara Lownds, a musa por trás de “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, uma maravilha lírica de 11 minutos de extensão, também presente em “Blonde on Blonde” – uma das mais belas canções do inesgotável repertório de maravilhas do cara. Em tempo: Sara, com quem Dylan teve quatro filhos, é morena. O rapaz era um azougue.
Pegando as iniciais de “Blonde on Blonde”, como observam dois comentadores argutos, teríamos simplesmente…Bob. Pegadinha infame, mas interessante, na linha do que observam Michael Coyle e Debra Rae Cohen em artigo sobre o disco de 1966.
A intenção de Dylan, como em certos poetas franceses simbolistas, seria a de tecer e, ao mesmo tempo, desconstruir o mito em torno da composição do autorretrato – em uma teia contraditória de indicações e pistas falsas que tornaria impossível a exegese, a interpretação precisa. Da mesma forma como, ao longo da carreira, jamais fixou arranjos musicais definitivos: as mesmas letras reaparecem, ao longo do tempo, em releituras sonoras irreconhecíveis se não se prestar atenção às palavras, ao que está sendo dito.
“Cansado da mão pesada nas interpretações de fãs, críticos e jornalistas, Dylan amplificou estratégias de composição que já haviam informado álbuns anteriores”, escrevem Coyle e Cohen, que situam o disco como o menos didático do segundo período de Dylan, em que ele deixa de ser “rebelde” para se tornar “sismógrafo”, como observa outra comentadora (Ellen Willis). Tudo isso no momento em que Dylan, no ainda recente abandono do violão e do formato folk tradicional, deixa de ser profeta e se torna Judas para antigos seguidores.
A ironia e a alusão obscura, autorreferencial, seriam marcas do disco, e de Bob, por que não, observam Coyle e Cohen. Um jogo complexo de espelhos, desnorteador, que envolveria o próprio conhecido refrão de “Rainy Day Women”, mencionado mais acima, que não teria nada de libertário e de apologia às drogas no sentido óbvio, sustentam os autores. Uma faixa que, segundo um participante da gravação – o baterista Kenny Buttrey -, foi concebida como se fosse algo da banda do Exército da Salvação: a paródia de uma espécie de marcha musical produzida por bêbados, em desafino e lassidão, permeada por interjeições, chiados, risos e murmúrios.
O refrão “Everybody must get stoned” na verdade, alegam os autores, não teria relação com a suposta liberdade de ficar chapado ou doidão, como seria na gíria, mas sim ao comportamento oposto, de polícia de costumes, em que os puristas do folk exerceriam o papel dos moralistas antidrogas ao punir desvios estéticos que teriam distanciado Dylan da norma.
Ou seja, a pura denotação de “get stoned” como “ser apedrejado” pelo distinto público progressista, chegado num fininho – sem qualquer conotação de “ficar doidão”, na dicção poética de Dylan. “Eles te apedrejarão quando você estiver no carro/Eles te apedrejarão quando você estiver tocando seu violão [ou seria guitarra?]”, canta Dylan. Gênio em ano de gênios; no mínimo, talentosíssimos, para os muito rigorosos.
Para reviver esses 3 grandes álbuns clássicos de 1966, o Roque Reverso traz abaixo os discos na íntegra para audição. Clique nos vídeos abaixo e deixe rolar a playlist.
1966, um milagre entre os milagres dos 60

