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Wire, ‘154’: um dos trípticos mais fascinantes do rock completa 40 anos

Por Caio de Mello Martins*

Em setembro de 1979, um quarteto punk inglês concluía, com o lançamento de um trio de álbuns em três anos, uma das transformações estilísticas mais radicais da história do rock n’ roll.

Estreando no fatídico ano de 1977 com um disco de 22 faixas comprimidas em 35 minutos – “Pink Flag”, tão conciso e brutal que fizeram os Ramones parecerem eloquentes, prenunciando o hardcore – a banda Wire soava irreconhecível dois anos depois.

Terceiro álbum dos caras, “154” seria o último disco da primeira fase do grupo (após um hiato de sete anos que seguiu ao colapso do Wire em 1980, os membros colocaram as diferenças de lado e reformaram a banda).

Nomeado em referência ao número de shows realizados pela banda até então, “154” apresenta um extenso uso de pedais de guitarra que adicionam camadas entremeadas de texturas exóticas. Violinos, flautas, sintetizadores e o uso consciente de microfonia e distorção conferem às canções de “154” uma densidade e um efeito poético arrebatadores, situando-o a anos-luz de distância da banda que havia iniciado a jornada apenas dois anos antes.

Precedentes na história do rock são poucos, o mais famoso sendo a incrível evolução dos Beatles: de “reis do iê-iê-iê” em 1964 aos inovadores ouvidos no álbum “Revolver”, de 1966 – prova inequívoca de que uma banda era capaz, com um simples álbum de canções pop, apontar os mais diversos caminhos para a evolução do rock, elevando-o ao status de música atemporal.

O grupo já havia posto em prática uma dramática transformação em seu segundo álbum, “Chairs Missing”, de 1978 – considerados por alguns críticos como o primeiro álbum pós-punk, escolha justificada por suas composições mais complexas, sonoridade eletrônica, postura introspectiva e uma fascinação pelo uso de ironia e jogos ardilosos de palavras para tratar temas mórbidos como suicídio e auto-alienação. No álbum seguinte, o Wire estreita sua parceria com o produtor Mike Thorne, espécie de integrante oculto da banda, e vê a diversificação de seu som ganhar confiança e desenvoltura.

Faixas como “Two People in a Room”, “On Returning” e “Once is Enough” mantêm a brevidade e a fúria do punk, mas evitam clichês mesclando eletrônica, dissonâncias e doses de musique concrète.

Em outro extremo, “A Mutual Friend” e “A Touching Display” são longas incursões nos experimentalismos de, respectivamente, Syd Barrett e John Cale – faixas que tecem uma polifonia incidental de sons e texturas para revelar afinal uma fortuita e resplandecente explosão sonora.

Na mesma veia do álbum anterior, músicas como “Indirect Enquiries” e “The Other Window” representam um rompimento tão radical com qualquer noção convencional de ritmo ou instrumentação convencional – guitarras e teclados são perfeitamente intercambiáveis – que não devem ser apreciadas como canções pop, mas sim por suas qualidades cinefílicas, responsáveis por acompanhar e produzir ambientações às narrativas carregadas de fragmentos simbolistas.

A dieta da banda não era restrita a experimentalismos, contudo. O vocalista e guitarrista Colin Newman era um compositor de mão cheia e, com a mesma destreza que sabotava lugares-comuns, era capaz de assinar singelas e charmosas canções pop que não soariam fora do lugar em algum álbum dos Beach Boys ou dos Byrds.

Maior joia do álbum, “Map Ref. 41°N 93°W” exibe o equilíbrio ótimo entre os arranjos inovadores do grupo e certas concessões ao gosto popular, como harmonizações vocais bem construídas e um andamento médio padrão. (Colin, num gesto perverso, deita versos com reflexões abstratas de semiótica tendo cartografia como pano de fundo, contrariando a expectativa do público de encontrar conforto e respostas no contato com a figura fetichizada do pop star – o toque de niilismo fica claro quando se revela o nome do lugar localizado nas coordenadas que dão o título à música: Zero, Iowa…).

O outro trabalho de ourivesaria pop fica por conta de “The 15th”, com suas melodias delicadas, que nos anos 2000 se tornaria hit nas mãos do grupo eletrônico Fischerspooner.

O álbum reflete o trabalho maduro de uma banda que apontava novos rumos para o rock em uma época crítica. Após a explosão punk que decretou a decadência de estilos ligados aos anos 1970, como o progressivo, o hard/arena rock e o glam, formou-se um vácuo que convidava ao desenho de uma nova identidade para a década que se aproximava.

Os Sex Pistols não sobreviveram ao hype e ao circo autodestrutivo criado em torno deles. The Clash e The Damned se voltavam ao passado para resgatar raízes. Os Ramones não queriam mais ser vistos como uma banda punk e começavam a massificar seu som, em busca do reconhecimento comercial que nunca viria.

Enquanto isso, nas fileiras do punk o conservadorismo recrudescia – grupos como The Exploited e Sham 69 rapidamente transformavam o punk em uma caricatura de si próprio. Nas rádios, bandas bem-sucedidas como Cars, Blondie e Police já estavam associadas a grandes produtores e mantinham a pantomima da descartabilidade pop intocada.

Jogando à margem, o Wire trazia uma lufada de ar fresco com sua aura sombria, sua postura irônica, seus discos imprevisíveis e o conceitualismo austero que aplicavam em todas as frentes – basta bater os olhos na capa de “154” e seu elegante minimalismo geométrico.

Um de seus mais ardorosos fãs era Robert Smith. Líder do The Cure e já com um álbum debaixo do braço (“Three Imaginary Boys”, de 1979), Smith chegou a declarar que, caso o Wire se juntasse novamente, não teria saída senão acabar com o Cure pois a banda perderia a razão de existir (!).

A introspecção do som do Wire, junto com seu approach heterodoxo às guitarras, se provaria essencial nas décadas seguintes, com a profusão de bandas de college rock/noise como Minutemen, Sonic Youth, Mission of Burma e R.E.M. e além – como mostra o cover de “Map Ref. 41°N 93°W” feito pelo grupo de shoegaze My Bloody Valentine.

A estatura do Wire no panteão do rock poderia fazer jus ao legado de sua obra, não fosse o fato de que as excentricidades da banda não ficavam restritas ao estúdio.

Assim que um álbum era concluído, a banda perdia interesse no material; entediados com a perspectiva de terem que excursionar e repetir as mesmas canções ad nauseam, os músicos usavam o tempo passado na estrada para compor novo material e testá-lo já durante as turnês – para desespero da EMI, a gravadora, já que a banda desperdiçava todas as chances possíveis de divulgar as canções recém-lançadas. Na turnê do álbum “154”, os atritos entre a banda e o público começou a aumentar, pois as hostes punks ali presentes para ouvir músicas do “Pink Flag” eram solenemente ignoradas.

No ano seguinte ao lançamento de “154”, o grupo já estava sem gravadora e decidiu por bem aplicar um golpe de misericórdia punindo a si próprio, ao público e ao “esquemão” da indústria ao mesmo tempo.

O livro do crítico inglês Simon Reynolds “Rip It Up And Start Again” descreve os detalhes da turnê que marcou o fim do Wire justamente quando a nova década se iniciava:

“Porém em um último e impressionante ato de perversidade, em vez de usar o show para assegurar um novo contrato, o Wire decidiu organizar uma apresentação extravagante e absurdista que evocava os shows de cabaré dadaístas entre os anos 1916 e 1919. Cada uma das canções deste repertório totalmente inédito era acompanhada por um espetáculo insano. Para ‘Everything’s Going To Be Nice’, dois homens amarrados a um avião inflável de plástico eram arrastados por uma mulher. Newman cantava ‘We Meet Under Tables’ vestido um véu negro que ia até os joelhos. [Graham] Lewis [baixista do Wire] berrava em ‘Eels Sang Lino’ ao lado de um poste de luz tipo pescoço de ganso. Durante ‘Piano Tuner (Keep Strumming Those Guitars)’ alguém depredava um fogão a gás, enquanto que ‘ZEGK HOQP’ incluía doze pessoas com cocares feitos de jornal tocando percussão. A plateia […] permaneceu desconcertada ou atirou garrafas ao palco. Foi o último show do Wire em cinco anos” (REYNOLDS, Simon, “Rip It Up And Start Again: Post-Punk 1978-1984”, p. 149, Faber and Faber, 2005 – o registro destes shows pode ser encontrado no live album “Document and Eyewitness”, de 1981.)

Todo gênio tem um pouco de louco, mas, no caso do Wire, o fascinante legado de “154” e seus contrastes em luz e contorno só poderiam existir graças ao desprendimento e à paixão suicida de artistas que investiram todo seu talento em busca de uma arte viva, múltipla, mutante.

Para comemorar os 40 anos do álbum do Wire, o Roque Reverso descolou três vídeos no YouTube que trazem o grupo numa apresentação justamente em 1979 para um programa de TV alemão. Fique com as músicas “The 15th”, “Map Ref. 41°N 93°W” e “Once is Enough”

*Caio de Mello Martins é amante do bom e velho rock n’ roll, jornalista e precisa do estilo para manter a sanidade mental

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