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Agora o mundo pode acabar: Killing Joke e sua poesia do apocalipse passaram por São Paulo

Killing Joke em SP - Foto: Reprodução do YouTube

Por Caio de Mello Martins*

A entidade pós-punk britânica Killing Joke fez no domingo show único (e inédito) no Brasil em 23 de setembro.

Após 4 décadas de serviços prestados, os caras enfim brindaram os fãs brasileiros com uma poderosa e afiada apresentação no Carioca Club, em São Paulo.

Pico tradicional de baladinhas e matinês forró, sertanejo e afins que é, encravado no baixo Pinheiros, o Carioca costuma vitimar bandas de som pesado que de tempos pra cá começaram a frequentar a casa, que têm de se conformar com o som embaralhado e frequentes panes no sistema de PA.

Felizmente, o Killing Joke passou ileso e o que se ouviu foi uma verdadeira pedrada (cujas lascas não eram lá muito nítidas, é verdade) que fez a alegria da diversificada fauna dark que abarrotou o local.

Que bonito é…

“I like diversity”, disse no meio do show o vocalista e bruxão de plantão Jaz Coleman. A frase, início de um discurso anti-Trump usado pra engatar a faixa “Corporate Elect”, caiu como uma luva para quem pôde esquadrinhar com visão raio-x o público que se via na fila e aos poucos se concentrava nos botecos amiúdes.

Gatinhas sósias de Siouxsie, doidões fãs de krautrock e do lado mais lisérgico do progressivo, as introspectivas moças indies de franja e olhares tímidos, metaleiros-cabeça-alternas saídos diretamente de 1993, punks de rua com suas jaquetas repletas de bordados das mais obscuras bandas de hardcore, nerds com um fraco por stoner e Black Sabbath… o Killing Joke sempre foi isso: um agregador de tribos e sensibilidades.

Assim foi desde o princípio, nos anos 1980, quando seus shows congregavam viúvas de Ian Curtis, fãs beberrões do Motörhead, a trupe dos moicanos que bradavam “Punk’s not dead” – todos celebrando, na Londres da época, o onisciente sentimento de fim de mundo.

É durante o show que a “diversity” fica ainda mais patente. Cada qual tem sua maneira de curtir o KJ – air guitar? Tá valendo. Slam dance (ou seria zombie dance) dos góticos? Tá valendo. Pogobol? Bora. Houve quem rebolasse também, por que não? A batida disco-punk comandada por Paul Ferguson em “Psychee” e “Love Like Blood” – que abriu o set – convidam ao requebro da pélvis.

Aliás, há dúvidas de que Jaz Coleman ainda conserve todos os ossos da sua pélvis… Ô cintura dura! O que chega a ser um espanto, visto que em plenos idos de mil e novencentos e setenta e lá vai pedra Mr. Jaz também curtia um Chic e dobrava os joelhos com muito Dub (e otras cosichas más…).

Mas justiça seja feita, além de reger a plateia, o cara berrou quando teve que berrar e cantou quando teve que cantar – mais berrou que cantou, já que o set list teve pouco de álbuns mais melodiosos como “Night Time”.

No total foram sete músicas dos 2 primeiros álbuns (cinco só do début homônimo, de 1980, uma das obras mais emblemáticas não só do pós-punk mas do rock alternativo em geral), e – compondo uma outra boa parte do repertório – uma seleção bem equilibrada dos álbuns da banda desde 2003, período que marca a retomada dos trabalhos após um hiato de sete anos.

Killing Joke em SP - Foto: Reprodução do YouTube Killing Joke em SP - Foto: Reprodução do YouTube Killing Joke em SP - Foto: Reprodução do YouTube Killing Joke em SP - Foto: Reprodução do YouTube

Vai pra puta que o…

Pariu, Sr. Paul Ferguson!!! Que energia tem esse batera. Um monstro.

Veneninho do jornalista: teria partido dele a escolha de não incluir nenhum petardo do ótimo “Hosannas from the Basements of Hell”, de 2006, um dos poucos álbuns a não incluí-lo na fita mestre? All is possible. Teria sido fodástico.

Traduzir ao vivo a vitalidade e a perseverança de uma banda com 40 anos de estrada não é bolinho, e isso Ferguson fez do início ao fim do show, ditando o ritmo da banda com muita solidez.

Em “Asteroid” – que mais parece a resposta de Jaz Coleman ao Sepultura – Ferguson quase fez o lugar desabar. Não tô brincando.

Peso e suingue, solidez e nuance, sempre de forma heterodoxa. Não é à toa que as características de Ferguson atrás dos “tambor” explicam o charme eclético do KJ. E isso transparece ainda mais na guitarra de Kevin Walter. Qualquer metaleiro tem o dever de ouvir esse cara CRIAR O INFERNO NA TERRA dedilhando acordes abertos em uma semiacústica.

Em vez de tolher baixistas e vocalistas aos grilhões da ditadura dos riff masters, Kevin desliza um dedo aqui, outro ali, vibra as cordas soltas e cria uma ambiência cavernosa, hipnótica. Parece fácil, mas não é. Isso é trabalho de banda, amigo.

Ferguson e o baixista Youth embalam o moto-perpétuo convoluto e visceral, e os riffs de Kevin ecoam no infinito para te transportar a outro mundo. “New Cold War” (de Pylon, último álbum da banda) foi especialmente gloriosa, mas claro que é com “Eighties” que Kevin reivindica o seu status como um dos maiores guitarristas dos anos 80 – Kurt Cobain que o diga.

Então…

Diz a lenda (e os próprios membros da banda, por increça que parível) que a primeira formação do Killing Joke foi completa graças a um ritual de magia negra com direito a pentagrama invertido desenhado a fogo, que “invocou” Kevin Walker para se juntar aos outros três como o guitarrista reservado por uma inexorável providência universal.

Desde então, Jaz & Cia. têm cantado o ubíquo apocalipse a se espreitar atrás das muitas “evidências” numerológicas, cuja maior herança é o surgimento das cinzas de uma civilização superior à “decadente” e “pervertida” sociedade atual, divorciada de suas dimensões intelectual, natural e espiritual pela tacanhice e ganância dos nossos tempos.

Killing Joke é o som do fim do mundo. Jaz já o esperou com avidez em 1982, quando chegou a desfazer a banda para se refugiar na Islândia do último e fatal cataclisma que viria. Não veio.

Mais de 30 anos depois, a humanidade continua pródiga em guerras, miséria, violência, (auto)destruição e agora essa tal guinada autoritária em escala global. É pra deixar feliz ou triste saber que o medo do colapso total segue alimentando estes quatro gentlemen britânicos??

O Roque Reverso descolou vídeos do show no YouTube. Fique inicialmente com “Eighties”. Depois, veja a banda tocando o clássico “The Wait”. Se quiser ver o show inteiro, siga para o último vídeo.

Set list

Love Like Blood
European Super State
Autonomous Zone
Eighties
New Cold War
Requiem
Follow the Leaders
Bloodsport
Butcher
Loose Cannon
Labyrinth
Corporate Elect
Asteroid
The Wait
Pssyche

Primitive
Wardance
Pandemonium

 

*Caio de Mello Martins é amante do bom e velho rock n’ roll, jornalista e precisa do estilo para manter a sanidade mental

2 Responses to “Agora o mundo pode acabar: Killing Joke e sua poesia do apocalipse passaram por São Paulo”


  1. 1 Marc
    27 de setembro de 2018 às 14:27

    Olhar (e audição) arguta do jornalista, que só esqueceu de dizer que o o locão do Jaz voltou a desaparecer por alguns dias nos idos de 2012, sendo depois localizado no deserto do Saara. Mesmo para os agnósticos, esse luminares do ocultismo pop deviam ser melhor compreendidos em sua genialidade visionária…

  2. 27 de setembro de 2018 às 20:31

    Bela resenha, Caio!
    E ainda ganhamos uma aulinha de Killing Joke! 😉


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