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Depeche Mode rompe ausência de mais de 20 anos em SP e faz show candidato a melhor de 2018

Depeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoO Depeche Mode se apresentou na terça-feira, 27 de março, na cidade de São Paulo, em show que fez parte da turnê de divulgação do álbum “The Spirit”, de 2017. A banda britânica rompeu uma ausência de mais de 20 anos dos palcos brasileiros. Com qualidade, fez uma apresentação que se transformou numa das candidatas a melhor do ano dentre as tantas que a capital paulista presenciará em 2018.

Para uma Arena do Palmeiras com um público de 25 mil pessoas, o Depeche Mode mesclou inúmeros hits da carreira iniciada nos Anos 80 com algumas músicas do disco mais recente.

Se alguém duvidava da capacidade da banda entregar um show convincente depois dos seus 38 anos de existência, qualquer tipo de questionamento caiu por terra a cada canção executada.

A constatação de que a apresentação se tornou candidata a melhor do ano se dá não apenas pela qualidade confirmada a cada música, mas também pelo retorno histórico aos palcos brasileiros. Enquanto diversos grupos descobriram a mina de ouro que é o País para shows de rock, voltando com frequência ao Brasil, o Depeche Mode havia vindo apenas em 1994 a terras tupiniquins, não retornando mais até este ano de 2018.

Desta vez, por sinal, o grupo teve à disposição um espaço mais condizente com sua importância na história da música. Se, em 1994, o local escolhido foi o ótimo e saudoso, porém pequeno Olympia, em 2018, coube ao Allianz Parque, arena mais moderna do País, receber os britânicos.

Enquanto a lotação do Olympia não passava das 5 mil pessoas, a Arena do Palmeiras permitiu que o Depeche Mode fosse visto por 5 vezes mais gente e possibilitou que banda, que chegou a brigar com grupos, como o U2, pela popularidade dentro do rock nas décadas de 80 e 90, fizesse um show com diversos itens que só os grandes costumam ter: telões enormes, efeitos de qualidade e cenário caprichado.

Vale destacar que, para o show do Depeche Mode, o Allianz Parque foi reservado com a configuração no estilo anfiteatro, que traz o palco no meio do gramado e reduz a capacidade de público. Quem conhece bem a arena chegou a ficar um pouco surpreso com o público total, já que sabe que, enquanto a capacidade completa está em torno de 55 mil pessoas, a que leva em conta o anfiteatro é tradicionalmente de 12 mil pessoas.

O que deu para perceber, no entanto, é que o palco não estava exatamente no meio-campo do Allianz Parque, mas um pouco mais à frente, o que deve ter possibilitado as 25 mil pessoas. A despeito deste detalhe, foi nítida a impressão de aperto, tanto na Pista Vip como na Pista Comum.

Este jornalista ficou durante boa parte do show bem na última fileira da Pista Vip e notou a dificuldade das pessoas para passar de um lado para o outro durante a apresentação do Depeche Mode. Talvez, para o show de terça-feira, o mais aconselhável seria a arena em formato completo e tradicional, já que público para isso havia. Este foi, entretanto, o único porém notado mais claramente, já que o restante ligado à organização do show ficou dentro do normal e não mereceu maiores críticas.

O show

A apresentação do Depeche Mode começou dentro do horário previsto das 21h45. Com uma chuva insistente que caiu sobre a capital paulista desde a metade da tarde, o show ainda seguiria com muita água caindo do céu pelo menos até as 5 primeiras músicas. Nada, porém, comprometeu a performance dos britânicos no protegido palco.

A primeira faixa da noite foi “Going Backwards”, do álbum mais recente. Com uma ótima letra, que faz crítica clara à forma inacreditável como o ser humano evolui para pior, a canção foi mais uma amostra para aqueles que por algum dia colocaram na cabeça que o Depeche Mode era apenas um grupo de rock eletrônico com músicas dançantes.

Dali em diante, a banda abriu o baú de preciosidades da carreira, saciando a sede dos fãs das diversas idades que estavam presentes na Arena do Palmeiras. “It’s No Good” trouxe o primeiro momento de delírio do público e foi seguida por “Barrel of a Gun”, “A Pain That I’m Used To”, “Useless” e “Precious”, que mantiveram todos vidrados e empolgados.

Enquanto o fim de “Barrel of a Gun” trouxe a primeira saudação do vocalista Dave Gahan aos fãs, chamou demais a atenção a intensidade de “A Pain That I’m Used To”. Com baixo e bateria marcantes, a faixa foi uma das melhores da noite e mostrou, mais uma vez, que o Depeche Mode estava ali também para trazer um rock da maior qualidade.

“World in My Eyes”, Cover Me”, “Insight”, “Home” e “In Your Room” vieram na sequência, trazendo o Depeche Mode para os mais diversos gostos. Teve “Insight” cantada pelo ótimo Martin Gore, um coro enorme do público durante e depois da execução de “Home” e a apresentação da banda por Gahan em “In Your Room”.

Grande destaque do novo disco, “Where’s the Revolution” também se confirmou como destaque ao vivo. Com projeções interessantes no telão, envolvimento do público e um entrosamento perfeito do grupo, nem parecia que a faixa era uma das mais novas do set list.

Depeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoDepeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoDepeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoDepeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoDepeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque ReversoDepeche Mode em SP - Foto: Flavio Leonel/Roque Reverso

Vale citar que além do trio formado pelos membros fixos do Depeche Mode (Gahan, Gore e o tecladista Andy Fletcher), os músicos de turnê também mostraram grande qualidade. Destaque para o baterista Christian Eigner, que trouxe uma pegada pesada em várias faixas durante o show, deixando muitos ali de boca aberta com sua categoria.

A despeito da qualidade de todos os músicos, é impossível não constatar a importância de Dave Gahan como elemento fundamental do show do Depeche Mode. Com um carisma típico que só os grandes frontmen são capazes de mostrar, o vocalista é daqueles que conseguem fazer o que quiser com o público.

As faixas seguintes (“Everything Counts” e “Stripped”) trouxeram dois momentos distintos do grupo durante o show. Enquanto a primeira transformou o Allianz Parque numa pista de dança, a segunda, bem mais lenta, ressaltou as qualidades de interpretação de Gahan.

Eis que surge então o momento aguardadíssimo da noite com o clássico “Enjoy the Silence”. A Arena do Palmeiras se transformou praticamente num lugar de culto e contemplação, com uma sintonia perfeita entre banda e público.

Quem viveu o mínimo de Anos 80 precisava estar lá neste momento da apresentação, pois parecia que trechos da década rica em experiências musicais iam e viam na mente de quem estava no Allianz Parque. Qual pessoa que viveu o período nunca se pegou cantando uma das faixas que é símbolo do Depeche?

Sem exagero, aquele pode ser considerado algo histórico para quem curte música e vai a shows em São Paulo, pois todo grupo de rock tem aquela música de maior sucesso e de maior destaque em shows. “Enjoy the Silence” é este tipo de canção e pode ser considerada a “cereja do bolo” da performance do Depeche Mode na capital paulista. Resgatou sentimentos de muitos ali presentes e, se a banda tivesse tocado somente ela na apresentação, já valeria o ingresso.

A primeira parte do show foi finalizada com outro clássico: “Never Let Me Down Again”. Se a canção anterior já havia sido a “cereja do bolo” da apresentação, a faixa seguinte não deveu absolutamente nada em qualidade, empolgação e envolvimento.

Cantada do começo ao fim pelo público, em sintonia perfeita com a banda, a faixa também é daquelas que o indivíduo que vai a shows fica cantando e assobiando durante semanas. Destaque para o tradicional momento em que Gahan rege o público com os braços e faz com que a plateia repita os gestos, numa coreografia que relembra os grandes shows de arena das décadas de 80 e 90.

Depois da pausa para o descanso, o grupo voltou para o bis com outro sucesso histórico: nada menos que “Strangelove”. O detalhe é que ela veio cantada de maneira acústica e não por Gahan, mas por Martin Gore. A despeito de ter sido uma experiência muito interessante, talvez, esse seria um ponto do show que poderia ter sido ainda melhor, se o grupo executasse a faixa da maneira original.

Quem sabe o sucesso que “Strangelove” fez nas rádios e nas pistas do Brasil deve conhecer a importância desta música para toda uma geração no País. Muitas vezes, um simples toque da produção para os músicos (“Olha, essa faixa aqui no Brasil é praticamente o seu maior hit por aqui!”) pode mudar rotinas que são repetidas durante toda uma turnê. Sim, o Depeche toca a música desta mesma maneira em toda a tour sul-americana atual, mas, se soubesse a importância dela no País, poderia improvisar na versão original, especialmente numa noite tão importante como aquela.

O show ainda seguiu com mais três grande momentos, em “Walking in My Shoes”, “A Question of Time” e “Personal Jesus”, com detalhes que envolveram desde cenas marcantes no telão e na performance de Gahan até um fim apoteótico da canção que fechou o show.

O saldo final da apresentação do Depeche Mode foi dos mais positivos. Partindo do princípio de que a banda demorou mais de duas décadas para voltar ao Brasil e entregou à plateia algo de grande qualidade, aquele havia sido um momento para não esquecer. E diversas rodas na saída da arena com o público comentando os vários momentos do show comprovavam isso. Mais um grande espetáculo que entrou na lista dos grandes momentos para quem curte shows na capital paulista.

Sim, muita coisa boa já foi apresentada em 2018 em São Paulo e muita banda ainda vai tocar na cidade ate dezembro. Mas é impossível não imaginar que o show do Depeche Mode na Arena do Palmeiras não tenha virado um candidato a melhor do ano na capital paulista.

Para relembrar grandes momentos da apresentação, o Roque Reverso descolou vídeos no YouTube. Fique inicialmente com o de “It’s No Good” e “A Pain That I’m Used To”. Depois, veja os de “Stripped”, “Enjoy the Silence”, “Never Let Me Down Again”, “Strangelove” e “Walking in My Shoes”. Para fechar, fique com o vídeo de “Personal Jesus”.

Set list

Going Backwards
It’s No Good
Barrel of a Gun
A Pain That I’m Used To
Useless
Precious
World in My Eyes
Cover Me
Insight
Home
In Your Room
Where’s the Revolution
Everything Counts
Stripped
Enjoy the Silence
Never Let Me Down Again

Strangelove
Walking in My Shoes
A Question of Time
Personal Jesus


8 Responses to “Depeche Mode rompe ausência de mais de 20 anos em SP e faz show candidato a melhor de 2018”


  1. 1 Ricardo Campos
    29 de março de 2018 às 17:12

    Parabéns pela resenha, Flavio. Uma das melhores que li sobre o show. Como fã “das antigas”, é sempre bom ver notas positivas e bem escritas, fugindo dos velhos clichês de “som oitentista”. Uma única retificação é a de que “Strangelove” só entrou no setlist praticamente agora nesta perna sulamericana e não foi tocada na maioria dos shows da Europa e EUA, quando “A Question Of Lust” foi mais presente (aliás, de modo geral só as músicas que Martin canta variam um pouco nas turnês). Abraço!

    • 29 de março de 2018 às 17:25

      Obrigado pelo elogio, Ricardo!
      A gente fica muito contente quando consegue descrever o show da maneira mais próxima possível do que aconteceu.
      Sim, de fato, percebi que eles só inseriram “Strangelove” mais recentemente.
      Não cheguei a citar Europa e EUA, mas vou ver se não deu a entender que me referi à turnê inteira!
      Grande abraço!!!!

  2. 4 Denis
    29 de março de 2018 às 23:25

    Parabéns, o texto representa grande parte dos sentimentos por qual passei nessa apresentação do DM. Abraço!

  3. 7 Lais
    2 de abril de 2018 às 19:50

    Eu me senti novamente no show ao ler seu texto. Espetacular como o show. Parabéns.


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