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Em meio à perplexidade e à degradação, biografia do Alice in Chains revela doçura do sonho

"Alice in Chains - A história não revelada" - Reprodução da CapaPor Caio de Mello Martins*

A trajetória do Alice In Chains é indissociável da tragédia pessoal de Layne Staley. Nascida das cinzas de um projeto metal farofa iniciado por Staley com amigos de adolescência, aos poucos a banda foi se despindo dos grooves e da jovialidade de suas influências hard rock (Aerosmith, Guns, Van Halen) para se tornar naquilo que ouvimos claramente nos dois últimos álbuns gravados com Staley nos vocais (“Dirt” e “Alice In Chains”, o disco do cão perneta) — um poço de negatividade, lentamente se rastejando ao som das assombrosas melodias de Staley, do lamento de tempero sulista de Jerry Cantrell e das sempre punitivas e graves marcações de Sean Kinney.

A escalada de drogas, tensão interna e aversão ao estrelato reverberaria na produção criativa da banda. Também seria decisiva na gradual paralisação das atividades do Alice In Chains como banda.

Após terem alcançado por duas vezes o topo da Billboard com o EP “Jar Of Flies” e o álbum homônimo, o grupo aos poucos ganhava ares de dinossauros do rock. Gravaram o inevitável acústico para a MTV em 1996, enquanto pelos próximos seis anos o nome da banda só apareceria no noticiário por conta de coletâneas, ou pior ainda, por tabela, com esparsos projetos paralelos e rumores sobre o estado de saúde do vocalista. O fim parecia apenas questão de tempo.

O mesmo pode ser dito sobre a vida de Layne Staley. Um homem que escolheu a morte. É o que se pode dizer de alguém que consumiu heroína e crack continuamente por dez anos.

Claro que essa morbidez toda permeia boa parte do livro “Alice In Chains: A História Não Revelada” (Editora Ideal), lançado em 2016. Passagens, histórias e momentos narrados pelo autor e pelas pessoas que acompanharam os integrantes do AIC desde 1984 alcançam tamanho nível de degradação humana que chegam a ser torturantes.

Mas assim como a própria obra do Alice In Chains, nem tudo é negrume. Muito à maneira da biografia de Kurt Cobain, “Mais Pesado Que o Céu”, o início do livro é encantador ao revelar a busca desses jovens roqueiros de Seattle por uma carreira na música. São garotos que em sua maioria, além de conviverem com cicatrizes emocionais legadas por famílias remendadas por morte, abandono e divórcio, também contaram com pouco ou nenhum apoio.

A corrida em nome do sonho contou com muitas renúncias. Eram pessoas que pegavam os empregos menos glamorosos possíveis para conseguir fazer as compras do final do mês. Ter um lugar para morar era uma realidade distante para muitos desses caras que haviam acabado de largar a Highschool e tinham migrado de seus subúrbios em busca de espaço em Seattle, conhecendo outras bandas e cavando presença no circuito de casas de show. Pular de casa em casa e trabalhar em estúdios em troca de um almoxarifado fedido para recostar a cabeça era alguns dos meios para se virar.

A inocência daqueles anos 80 é algo que David De Sola explora muito bem. Esses meninos branquelos, mal alimentados e delinquentes, exemplos vivos do White Trash norte americano fomentado pela recessão e obscurantismo dos anos Reagan, não arredavam de seu lema: Travaillez Jamais, viva o sonho do rock n’ roll.

Naquela época em que o fino da moda se media em tubos de laquê, repiques a la Farrah Fawcett, plataformas e calças de lycra furadas nas nádegas, eles faziam o melhor que podiam — com direito a coreografias ensaiadas e explosões no palco. Poison e Mötley Crüe eram os modelos. Como faziam os Mods nos anos 60, esses garotos retrucavam a desigualdade social e a aridez do status-quo daqueles tempos com uma insolente irrealidade.

Relatos de shows da banda por volta de 1987/88, quando ainda tocavam sob o nome “Diamond Lie”, dão uma amostra de como conseguiam usar toda essa parafernália sem se levarem a sério: um número de Layne consistia em andar de triciclo no palco com uma folha de sulfite em que se lia “Laynemobile”, como um Rob Halford caipira; Jerry Cantrell pedia que os assistentes de palco segurassem um espelho à sua frente para que pudesse admirar sua própria beleza.

David De Sola deixa no ar que Jerry Cantrell, principal compositor da banda, passou a dar uma direção mais pesada às músicas após travar contato com o Soundgarden, que na época compartilhava da mesma empresária e estava às vésperas de assinar com uma major. A partir daí, Cantrell teria intuído que o Hard Rock como então era conhecido teria de dar passagem a novas sensibilidades.

Os momentos que antecedem a fama — com a expectativa de “finalmente chegar lá”, e a sensação de que gradualmente seu trabalho ganha peso e relevância — rendem as lembranças mais doces das bandas, o que é compreensível: elas ainda não têm nada a defender.

É essa euforia que guia o leitor de início para prepará-lo para o pior no final; mas não só isso. É a constatação da sagacidade de Layne Staley, relatada por todos que o cercavam, entre produtores, técnicos de estúdio, amigos de estrada e empresários.

Longe do zumbi sequelado que parecia cochilar no Unplugged de 1996, Layne Staley foi o principal responsável por aperfeiçoar a técnica de sobreposição de vozes em estúdio que é a grande mágica de “Dirt”; irônico e piadista em entrevistas, era também o membro mais afável da banda; generoso, botava na lista de convidados de shows do Alice In Chains a garotada que não tinha grana para pagar o ingresso.

Em outra semelhança com a biografia de Kurt Cobain, foi o primeiro músico da banda a ficar noivo. Uma diferença curiosa entre o seu relacionamento e o de Kurt é que foi sua noiva, Demri Parrott, quem o introduziu à heroína, papel que coube a Kurt no outro caso.

É a destruição de Layne e do baixista Mike Starr — dispensado logo após o show no Holywood Rock, no Rio — que tornam o livro tão melancólico em sua segunda metade. Por volta de 1993, todos os integrantes batalhavam com recaídas em algum tipo de vício.

O acelerado processo de debilitação de Layne Staley pelas mãos da heroína, no entanto, corroeu o funcionamento interno da banda. Compor em conjunto e gravar ficou impraticável, e não foram poucas as turnês e participações em festivais canceladas. Os cinco anos finais de Layne foram um regime intenso de intoxicação mental e física à base de PlayStation, heroína e crack.

A heroína ceifou um a um dos personagens da cena de Seattle — pessoas próximas a Layne Staley e que resistiram por menos tempo, como Andrew Wood, do Mother Love Bone (morto em 1990), e Demri (1996). Uma cena surreal descreve um encontro totalmente acidental entre Kurt, Layne e Mark Lanegan, do Screaming Trees, em uma mesma boca de fumo da capital grunge. Uma prova do estrago que o tráfico de drogas e o advento da heroína na região provocaram sobre uma geração inteira.

Talvez o maior enigma aberto pela biografia de David de Sola seria o fatalismo de tragédias como a de Layne Staley, recorrentes na história do pop. Por que a falta de capacidade em lidar com o ônus da fama dá lugar a uma espiral interminável de auto-rejeição e reclusão? Qual a raiz deste niilismo que elimina o propósito de vida acalentado por anos e anos de investimentos e sacrifícios? Como explicar a sanha destrutiva incontrolável que é insensível aos apelos de amigos, companheiros, familiares e a dezenas de intervenções e internações em clínicas? O pior, imagino, é fazê-los entender que, no fim, cada um depende apenas de si próprio.

*Caio de Mello Martins é amante do bom e velho rock n’ roll, jornalista e precisa do estilo para manter a sanidade mental
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1 Response to “Em meio à perplexidade e à degradação, biografia do Alice in Chains revela doçura do sonho”


  1. 28 de dezembro de 2016 às 12:33

    Texto bacana do grande Caio de uma grande banda que soube se reerguer depois da morte de Layne Staley.


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