Hoje é o grande dia. O AC/DC volta a São Paulo depois de 13 anos e um punhado de dias. Era um sábado, 12 de outubro de 1996. Eu era radioescuta em uma emissora AM de São Paulo e negociei uma folga para ver o show dos meus sonhos até então.
Desde que o rock se instalou em mim, quando eu ainda era moleque, o AC/DC sempre foi a banda estrangeira com a qual mais me identifiquei. Pelo som, pelo escracho, pela energia, e tudo mais.
Havia o casamento de um primo na ocasião e me lembro de ter dado uma certa confusão em casa porque eu ia ver o AC/DC. Como eu suspeitava na época, os australianos não voltariam tão cedo a São Paulo. A oportunidade era única.
Acordei no sábado de manhã. Não muito cedo, pois isso não faz meu estilo. Passei uma água no rosto, engoli um pão com manteiga e fui para o Pacaembu. Peguei o metrô displicentemente em Santana, fiz baldeação no Paraíso e desci nas Clínicas.
Tudo com muita calma, na maior tranqüilidade. Era o show pelo qual eu mais havia esperado até meus 20 anos e eu, conhecido pela ansiedade extrema, ia pela cidade como quem vai a passeio, imaginando estar fazendo um grande negócio.
Era perto do meio-dia, estava um sol bacana de primavera e havia pouca gente na rua. Desci do metrô para o Pacaembu no maior sossego, sem nem ao menos imaginar o que me aguardava.
Quando terminei de contornar o estádio, do alto de uma escada lateral que termina na Praça Charles Muller, um susto. A fila, iniciada no portão principal do Pacaembu, prolongava-se por toda a extensão da praça e entrava pela avenida, desaparecendo em uma curva.
“Danou-se”, pensei. “Lá se vão meus planos de ver o show enroscado na grade.”
Desci a escada pensando em algum plano B. Fui até a frente do portão me certificar do óbvio, que ali era o início da fila, quando alguém chama: “Ricardo, Ricardo”.
Um pessoal que eu havia conhecido na praia um ano antes estava na boca da fila. Alívio total. Ali me instalei e esperei pela abertura dos portões gastando o que sobrava do meu parco salário em cerveja superfaturada.
Os portões só abririam algumas horas mais tarde. E, quando isso aconteceu, corri ensandecidamente até a grade e jurei a mim mesmo que, antes do término do show, dali só sairia morto.
As horas se passavam, a multidão ia entrando e eu ia sendo esmagado. Não havia espaço pra nada. Nunca foi tão útil respirar pela boca quanto naquele 12 de outubro.
A abertura, feita pelo Angra, então com André Mattos nos vocais, me deixou impaciente. Eu gostava do Angra, curtia heavy melódico, mas queria ver e ouvir AC/DC. Prestei pouquíssima atenção e cheguei a me questionar sobre a real necessidade e/ou utilidade de um show de abertura. Mas foi apenas um flerte com a insanidade e a falta de oxigênio.
O show terminou, os assistentes de palco prepararam o terreno, as luzes se apagaram. Logo depois, enquanto eram acesas e uma enorme bola derrubava um muro posicionado na frente do palco, Angus Young entrou num elevadorzinho, acenou para a multidão posicionada naquela nada confortável fila do gargarejo e subiu para o palco.
Quando a parede terminou de cair, o AC/DC mandava ver “Back In Black” e o Pacaembu veio abaixo com o show da turnê do álbum Ballbreaker.
Mesmo exausto, aguentei ali praticamente o show inteiro, inclusive grande parte do extenso bis. Quando Angus Young e sua trupe se preparavam para “For Those About To Rock”, que tradicionalmente encerram as apresentações do AC/DC, pulei a grade, saí pela enfermaria e assisti ao encerramento da lateral, mas ainda a poucos metros do palco.
Na saída, alguns amigos que encontrei depois notaram a marca da sola de um coturno nas minhas costas, estampada na camiseta branca. Quando levantei a camiseta para ver a marca da porrada, os olhos de quem estava por perto voltaram-se para os hematomas que tomavam conta do meu peito, da minha barriga e das minhas costas. E eu simplesmente não havia sentido nada até ali. Todos os meus sentidos, os normais e os paranormais, estavam voltados para o AC/DC.
No dia seguinte eu quase não levantei da cama. E os hematomas, principalmente os do peito, por ter ficado prensado na grade, levaram mais de uma semana pra sumir.
Treze anos depois, irei ao Morumbi esta noite “apenas” com a expectativa de ver um excelente show – o que já é uma expectativa e tanto -, mas não consigo acreditar que será melhor que o de 1996.
Ricardo Gozzi


Hahahahahahaha!!!!!! Eu ouvi a história da bota nas costas em casa! O seu post me instigou a ir pro Morumbi garimpar um ingresso…
Quem não tem uma história de corrida ensandecida “pelo melhor lugar da grade” nunca viveu uma das melhores experiências de devoção à música, rs.
Ah, e bom show hoje aos credenciados!
Vocês dois vão ficar fazendo muito misetério pra contar como foi? Embora eu tenha sabido em primeira mão de alguns detalhes pós-show, quero ler um relato pormenorizado.