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O Golden Shower de ‘Joe’s Garage’; 40 anos da obra em 3 atos de Frank Zappa

Por Caio de Mello Martins*

Dentre tantas coisas que imaginamos ver Frank Zappa fazendo se ainda estivesse vivo hoje, uma delas seria pensar que resposta Zappa daria no twitter para a pergunta de Jair Bolsonaro “O que é Golden Shower?”…

Uma coisa que a psicologia diz sobre os tiranos é que, quanto mais defeitos eles imputam aos seus inimigos, mais eles dizem sobre si mesmos. Como o narcisismo gigante de suas personalidades os impedem de admitir seus próprios defeitos, a única maneira que um tirano tem de enxergar seus vícios é projetando-os sobre os outros.

E é nessa lógica de sinais invertidos que aprendemos com os tiranos que a normatização da sexualidade e a objetificação da mulher não é o fim de cristãos fanáticos, mas sim de pedagogos e sexólogos; que a exploração predatória e criminosa das riquezas e do território amazônico é o objetivo de ONGs ambientais, e não de grileiros e fazendeiros; que quanto mais religioso, patriarcal e ufanista for o discurso de um professor, “menos ideologia” a sala de aula vai ter, e por aí vai…

Há 40 anos, Zappa escrevia “Joe’s Garage”, espécie de peça em três atos que descreve uma das histórias mais sórdidas, escatológicas e perversas já gravadas em vinil.

O álbum conta a saga de Joe, a perfeita representação anônima do americano médio (“Average Joe”), desde sua adolescência nos gramados suburbanos dos Estados Unidos. Assim que tem a ideia de montar sua própria banda, Joe cai em desgraça e termina preso por (em termos gerais) ser um obcecado por música em uma sociedade que despreza a cultura e (mais especificamente) por danificar patrimônio alheio depois de mijar sobre um robô erótico.

Mais do que destilar sua marca de humor escrachado – canções como “Catholic Girls”, “Crew Slut” e “Why Does It Hurt When I Pee?” são auto-explicativas –, Zappa está interessado em mostrar o que essa ópera-rock pode revelar sobre o inconsciente de quem a conta.

Joe é obviamente o “herói” da história, mas os holofotes do álbum estão centrados mesmo na sarcástica figura do Central Scrutinizer, deliciosamente interpretado por Zappa.

Trata-se de um burocrata estatal que, nas suas próprias palavras, está encarregado de “reescrever a Constituição de forma a acomodar ‘O Futuro’” e “fazer valer leis que ainda não foram aprovadas no Congresso” – sendo que, em sua visão, a criminalização da música é projeto de lei de última importância.

Joe é, portanto, a ficção dentro da ficção, a personagem central dentro da parábola moral narrada pelo Central Scrutinizer no intuito de alertar os “incautos” cidadãos norte-americanos sobre os perigos da música, “insidiosa” e “temível” forma de lassidão moral que há décadas “corrompe” o vigor da juventude e destrói os caros fundamentos das nossas tradições.

Pois bem, essa propaganda ideológica continua ao modo dos mais tacanhos vídeos anti-drogas (a maconha que leva à cocaína que leva ao crack etc). Joe ensaiava com sua bandinha na garagem e passa a despertar a fúria da vizinhança, o que o coloca em rota de confronto com a polícia; depois de levar uma “prensa”, ele é mandado à Associação Cristã de Moços, descrita pelo escrutinador central como um antro de putaria tolerado por padres de sexualidade ambígua; não obstante, Joe engata um namoro com uma tal Mary e passa seus dias “de mãos dadas e com pensamentos puros”, até que a turnê de uma grande banda de rock passa pela cidade e Mary, seduzida pelos músicos, abandona Joe para se tornar groupie.

Quando, solteiro, Joe contrai gonorreia ao tentar esquecer Mary com outra garota, o protagonista chega ao fundo do poço. Joe então se volta à religião e descobre um descolado guru que prega que só há um jeito para a humanidade encontrar a plena felicidade: praticar sexo com máquinas.

Em um dos cultos da “Igreja de Aparelhologia” (Appliantology no original), Joe se encanta com um robô sexual todo paramentado com enormes consolos e outras ferramentas do prazer, porém a noite termina mal: satisfazendo todas as taras possíveis com o modelo XQJ-37 nuclear powered pan-sexual roto-plooker, Joe dá perda total no robô depois de um Golden Shower e, sem dinheiro para ressarcir a igreja, é preso.

“Sy… speak to me!! Woah nooooo!!! The GOLDEN SHOWER must have shorted out his master circuits… He’s – oh my God – I must have ‘plooked’ him to death – hey…”

A esta altura, a sociedade norte-americana já se encontra totalmente transfigurada com a concretização da proibição da música, tendo os Estados Unidos se transformado numa nação fundamentalista em que apenas um culto é tolerado – o da mercadoria.

O espaço público é dominado exclusivamente pelas regras da “White Zone”, um espaço em que é permitido apenas “carregar ou descarregar” e que dirige e disciplina as energias da população para o consumismo desenfreado.

Joe passa anos na prisão sendo “gang-bangueado” por seus colegas de cela, todos eles músicos ou executivos de gravadoras. Após cumprir sua pena, o herói, condenado a viver em um mundo sem música, passa seus dias em transe buscando refúgio em notas e canções imaginárias, até que um dia Joe se dobra à realidade e arranja “um bom emprego”.

E é assim que um sonho banal de estrelato se torna, no relato do Central Scrutinizer, o ponto de partida para uma bola de neve de perversões sexuais, DSTs e humilhações que vão desaguar na morte existencial de Joe, fazendo dele o estigma a ser evitado. Realmente, o pecado está nos olhos de quem vê…

Atravessada por consolos, cus, orgias, abusos e objetificação sexuais, a história de “Joe’s Garage” pretende mostrar que toda a relação de dominação tem subjacente a si uma forte carga erótica, permeada por sentimentos como culpa e crueldade.

Não é à toa que tiranos e líderes fascistas têm pavor de prazer: o poder deles emana dos sistemas de códigos e regras baseados na hierarquia – relações de dominação e submissão são estabelecidas entre os diferentes estratos, que possuem um papel pré-definido no funcionamento do todo e que são motivados por um conjunto de punições e recompensas. É por isso que na visão de um algoz como o escrutinador central o sexo aparece sempre como algo degradante ou violento.

Tentador e imperioso, o sexo, como elemento ligado ao princípio do prazer, desagrega a harmonia do grupo, dispersa a disciplina e energia necessárias à performance de todas aquelas tarefas diárias que constroem o ritual coletivo de pertencimento social. Urge aos tiranos reprimir o sexo e demonizá-lo como algo que expõe o indivíduo ao risco de ostracismo.

Retomando os conceitos freudianos de psicologia das massas, Theodor Adorno, em um ensaio escrito no pós-2ª Guerra Mundial, aponta para os “filhos da cultura de massa estandardizada atual, amplamente despojados de autonomia e espontaneidade” que formaram a base social e política para o fascismo.

É uma massa composta por indivíduos sem filiação a qualquer classe, impotentes e frustrados em suas ambições, que compõem o rebanho de líderes autoritários calcados na figura do “grande homem comum”: são líderes que veiculam um discurso impregnado da visão de mundo preconceituosa e simplista de seus seguidores – geralmente voltada contra uma extensa lista de inimigos.

Este processo psicológico de identificação com o líder faz com que a massa se sinta investida de poder, pois se vê representada nos altos círculos por alguém que lhe reflete a mesma tacanhice e pequenez de espírito.

Penúltima música da obra, a quasi-instrumental “Watermelon in Easterhay” – um dos mais belos solos do bigodudo, ou o último “solo imaginário” de Joe – incide tons de melancolia à conclusão do álbum.

A trajetória da personagem, que vai da garagem à fábrica da “Cozinha Experimental da Companhia Pública de Muffins”, satisfaz o desejo de vingança do Central Scrutinizer – ele, assim como todos aqueles que se encontram engajados dentro de uma sociedade totalitária, fazem a patrulha moral para garantir que a miséria seja partilhada por todos: projetos e prazeres individuais não são permitidos, e a intelectualidade apodrece em um civilização em que o sacrifício de todos por todos é a única atitude tolerada.

A ideia de Zappa de usar a premissa da proibição da música para denunciar formas de abuso de poder – seja por parte da onipotência do Estado, seja por parte do filisteísmo da sociedade de massas – foi confessadamente inspirada pela Revolução Islâmica que ocorreu naquele mesmo ano de 1979 no Irã, e que teve como uma das consequências a proibição da música e de sua difusão.

Diante da ascensão, nos EUA da época, do fundamentalismo cristão e de seitas religiosas altamente fraudulentas como a Cientologia (satirizada no álbum pela “Igreja da Aparelhologia”), faz sentido que Zappa tenha brincado com a visão de um país tomado pelo revisionismo e censura de uma doutrina ultra-conservadora.

Por outro lado, Jello Biafra já cantou que “aqui nos Estados Unidos fizemos muito melhor que os aiatolás: usamos a música para pôr os cérebros da população em sono profundo”. A indústria fonográfica é e sempre foi uma grande aliada do status quo, e sua forma massificada em nada contribui, como Adorno diz, para a “autonomia e espontaneidade” do indivíduo. Entretanto, este que vos fala não consegue pensar em Maroon 5, Coldplay, Ariana Grande e tantos outros soporíferos oportunistas regurgitadores de clichês sem pensar na “White Zone” de “Joe’s Garage”, idealizada pelo Central Scrutinizer após a abolição da música, e que surge ao mesmo tempo como um paraíso do descartável e como o único espaço permitido (e vigiado) de sociabilidade.

“Joe’s Garage” não é perfeito e nem tem a pretensão de o ser. Zappa concebeu o plot durante as gravações, ou seja, não havia a intenção original de formar uma unidade temática com as canções – o que equivale dizer que a concepção dessa ópera rock é produto antes de mais nada da caótica e borbulhante criatividade de Zappa.

Para se ter uma ideia, os dois discos que formam “Joe’s Garage” foram respectivamente a quarta e a quinta bolacha que o músico lançaria APENAS em 1979 – o primeiro disco, trazendo o Ato I, foi lançado em setembro; dois meses depois viria o segundo disco, concluindo a história com os Atos II e III.

Frank Zappa usou o álbum como laboratório para uma técnica de estúdio que ele batizou de xenocronia, que consistia em usar solos de guitarra anteriormente captados em shows e transplantá-los para novas composições – a sobreposição resultaria em combinações acidentais e aleatórias entre as tonalidades e andamentos de dois contextos diferentes. A coisa nem sempre funciona, e lá pelo final do segundo álbum, a maioria das canções que passaram pelo tratamento “xenocrônico” perdem foco e divagam à deriva.

À medida que o álbum avança, a banda descreve um desfile eclético de estilos, passeando com igual desenvoltura por jazz fusion, disco fusion, doo wop, dodecafonismo, reggae e blues-rock.

Essa mistura anárquica de referências de arte lowbrow e highbrow também se reflete no modo hábil com que Zappa conduz a narrativa: encarnando o Central Scrutinizer, Zappa combina o discurso pomposo e doutrinador de um narrador escrupuloso com tiradas vulgares.

Em outro flanco, Zappa recrutou todos os seus músicos para dar voz a cada um dos personagens. O fato de nenhum deles ser ator não prejudica a qualidade do show: as interpretações cômicas mostram o quanto os músicos estão conscientes da ridícula moral tortuosamente veiculada pelo escrutinador central. Ou seja, a história é ao mesmo tempo caricaturizada e carregada de metalinguagem.

“Joe’s Garage” pode ser acossado pela visão cínica e amarga de seu autor, porém o sentimento que prevalece após a última música é a diversão que estes caras tiveram nessa tentativa falha (portanto humana) de decifrar o mundo moderno. A troça dadá e o espírito jovem continuam sendo o melhor antídoto para a alma.

Para celebrar os 40 anos do disco de Frank Zappa, o Roque Reverso descolou vídeos no YouTube de músicas do disco tocadas ao vivo pelo músico. Fique inicialmente um vídeo que traz as faixas “Joe’s Garage” e “Why Does It Hurt When I Pee?”. Depois, fique com um vídeo ao vivo com Zappa executando “Watermelon in Easter Hay”. O terceiro vídeo traz a possibilidade de ouvir a obra por inteiro, em sequência do YouTube do próprio canal de Frank Zappa.

 

*Caio de Mello Martins é amante do bom e velho rock n’ roll, jornalista e precisa do estilo para manter a sanidade mental

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