
Por Luis Eduardo Leal*, especial para o Roque Reverso
“O amor sem fim não esconde o medo, de ser completo e imperfeito” nos ensina mais uma vez Roberto Frejat, aos 64 anos, com os companheiros de tantos anos antes, Dé Palmeira, Guto Goffi e Maurício Barros, reunidos no sábado frio e chuvoso de São Paulo, que os abraçou como se fosse uma quente noite carioca dos anos 80.
Emoção ver os senhores ali fazendo o bom e velho rock and roll que os levou da lona do Circo Voador para a Arena do Palmeiras no dia 23 de maio, décadas depois: dos registros amadores em VHS para a alta definição dos telões gigantescos, sem perder a essência da melhor música autoral, seja no peso das guitarras e do comentário social, de “Torre de Babel” ou “Declare Guerra”, seja no lirismo quase quietista do violão, em “Todo Amor que Houver nessa Vida”, com direito a dueto com Cazuza no telão, o poeta sempre vivo.
Gostaria de ter visto um pouco mais dos dois primeiros discos do Barão ainda com Cazuza, com queridas canções que ficaram de fora da lista, como “Vem Comigo” e “Largado no Mundo” – mas que, de qualquer forma, sempre me pareceram indistinguíveis da brejeirice típica daquele cantar inicial do Cazuza.
De qualquer forma, o poeta apareceu bastante, inclusive com marcos da carreira solo, como “Codinome Beija-Flor”, “O Tempo não Para” e “Blues da Piedade” – este na voz de Ney Matogrosso, tão importante para a carreira do grupo, como o próprio Frejat fez questão de lembrar para todos os presentes.
Versões do Barão Vermelho para clássicos de outros grandes artistas, como Bezerra da Silva, Raul Seixas, Renato Russo, Rita Lee e Angela Ro Ro, não ficaram de fora. Afinal, se pensarmos e sentirmos a fundo, “Amor meu Grande Amor” poderia ser uma parceria Cazuza/Frejat, assim como “Down em Mim”, um visceral hino de banheiro de bar nas noites mais tristes, poderia ter saído do piano e da voz rouca de Angela.
A música é uma grande família, mais une do que afasta – diferentemente, talvez, da competição nem sempre lúdica encenada nas grandes arenas de futebol.
Nesse mesmo registro, foi muito emocionante ver os barões ainda jovens, no telão, tocando inclusive na praia, dos saudosos anos 80 no Rio, seguramente mais tranquilo e pacífico então – em “Meus Bons Amigos”, do álbum “Carne Crua”, posterior à partida de Cazuza. E também Luiz Sérgio Carlini, o mágico guitarrista de tantos riffs memoráveis, como o de “Ovelha Negra”, que nos deixou no início de maio, justamente homenageado pelos barões.
Em certo momento do show, na hora do papo com o público, ouvir Guto Goffi lembrar que o Barão Vermelho começou entre amigos de colégio, a princípio ele e Maurício Barros, me fez lembrar do mesmo relato e de uma das primeiras perguntas que fiz, ainda como estudante de jornalismo, em 1988, aos 19 anos.
A missão atribuída pelo professor de “Técnicas de Reportagem” na PUC-Rio (não lembro mais se o Vitor Iório ou o José Eudes) foi a de entrevistar alguém da cena rock da época. Talvez tenha sido o Eudes, que uma vez comentou que um texto que escrevi sobre o Echo & the Bunnymen parecia coisa da então já extinta revista Bondinho. Nunca tinha ouvido falar dela, fiquei sem entender.
Meus bons amigos Maria José e Marcelo Camacho – onde vocês andam? – eram mais descolados do que eu e já mexiam com jornalismo, digamos, profissionalmente: me deram vários números de personagens da época.
Tentei falar com alguns deles, todos ainda por aí. Mas apenas um me atendeu: Roberto Frejat.
Com simpatia e gentileza, marcou no Lamas, icônico restaurante do Largo do Machado.
Apareceu na hora combinada e, sem sequer aceitar uma água, me contou por uma hora e meia – uma fita Basf 90, lembram? – a história do Barão Vermelho até ali.
Longa vida aos poetas e, também, a todos os gentis.
O Roque Reverso descolou vídeos do show do Barão Vermelho na Arena do Palmeiras.

