Angus Young e Brian Johnson em show do AC/DC em São Paulo – Foto: Flavio Leonel/Roque Reverso

O AC/DC reencontrou a cidade de São Paulo pela primeira vez em mais de 16 anos de ausência na noite da terça-feira, 24 de fevereiro, e fez a alegria de cerca de 70 mil pessoas no Estádio do MorumBis. Com um repertório recheado de clássicos da carreira e com músicas do mais recente álbum “Power Up”, lançado em plena pandemia da covid-19, em 2020, a lendária banda australiana mostrou, mais uma vez, por que motivo é essencial para o bom e velho rock and roll.

Para um público ávido para ouvir o som da banda ao vivo após 16 anos (quase 17) sem esta possibilidade, o AC/DC entregou tudo e mais um pouco do que se esperava, com destaque para a primeira execução na capital paulista do clássico de quase 5 décadas “Jailbreak”, um dos pontos altos do show na capital paulista.

A plateia, composta de representantes de várias gerações, incluindo fãs já idosos e crianças e adolescentes, além de famílias inteiras, degustou cada momento.

Todos sabiam que esta quarta vinda ao Brasil, a terceira para a cidade de São Paulo, pode ser a última da carreira de mais de 50 anos do grupo australiano, que, além do show do dia 24, agendou apresentações para os dias 28 de fevereiro e 4 de março.

Fãs antigos e gente que nunca havia visto a banda

Além das várias gerações presentes, o perfil do público foi bem heterogêneo, com uma concentração que trouxe desde fãs das antigas que estiveram em todas as oportunidades que o grupo tocou na capita paulista até gente que jamais havia visto qualquer show da banda e que sonhava há anos por isso.

Nas rodas de conversas antes do show, era possível ouvir histórias de gente com experiências incríveis sobre shows antigos e relatos de fãs que fizeram “loucuras” para conseguir presenciar as apresentaões de 2026 em São Paulo.

Outro fato que chamou a atenção foi a quantidade de fãs de fora do Estado de São Paulo presentes no MorumBis. Sotaques de locais de diversas partes do Brasil eram ouvidos, já que não houve shows agendados em outras capitais do País e a única alternativa era a vinda para São Paulo.

O retorno após anos de incertezas

O retorno do AC/DC ao Brasil e a São Paulo aconteceu após um longo período de incertezas sobre o futuro da banda, que envolveu desde morte de integrante até saída de membros, passando também por questões de saúde.

Para a turnê do “Power Up”, iniciada em 2024, dois músicos vivos da formação clássica do AC/DC, o baixista Cliff Williams e o baterista Phil Rudd, não estão presentes.

Eles estão sendo substituídos, respectivamente, pelo baixista Chris Chaney (ex-Jane’s Addiction) e pelo baterista Matt Laug.

É a primeira turnê da banda desde 2016, quando o AC/DC tocou pela Rock or Bust World Tour.

O bom álbum “Power Up”, lançado em novembro de 2020, trouxe de volta ao grupo o vocalista Brian Johnson, o baterista Phil Rudd e o baixista Cliff Williams, que já havia anunciado aposentadoria em 2016.

Entre os retornos marcantes ao palco, destaque maior para a volta de Brian Johnson, que havia se afastado dos shows ao vivo em meio à turnê do “Rock or Bust”, por razões médicas.

Cliff Williams só gravou o álbum e se apresentou no badalado festival Power Trip em 2023, mas depois voltou para sua aposentadoria.

Phil Rudd só gravou o álbum, mas não conseguiu se apresentar em shows, já que enfrenta problemas com a Justiça e teve dificuldades, por exemplo, para viajar para os Estados Unidos.

No lugar de Rudd, Matt Laug estreou ao vivo com o AC/DC desde o Power Trip.

Outro nome não clássico presente desde então foi o guitarrista Stevie Young, que gravou o álbum mais recente e substitui o saudoso tio Malcolm Young, que morreu em 2017.

Agora, na turnê do “Power Up”, Brian Johnson e o fundamental guitarrista Angus Young são os únicos representantes da segunda formação clássica do grupo.

Ingresso caro, divisão bizarra de pista e reclamações sobre a organização

A volta do AC/DC para São Paulo não passou ilesa de críticas por parte do público nas questões de preço de ingresso e organização.

A primeira reclamação (e mais contundente) foi o valor extremamente caro das entradas. Apesar de todo o apelo gerado pela banda e da grande oportunidade do reencontro (e possivelmente despedida), os preços (ingressos para a Pista custaram incríveis R$ 1.350,00) afastaram muitos fãs sem condição de arcar com este tipo de custo.

Ainda assim, os três dias tiveram ingressos esgotados e alguns poucos sortudos ainda conseguiram descolar entradas em pequenos lotes extras que apareceram por desistências mesmo no dia do show do dia 24.

A divisão da Pista em setores A e B, mas com o mesmo valor da entrada também foi um ponto com gigantesca reclamação, já que o que ocorreu foi a mudança no nome de Pista Vip para Pista A e a Pista Comum para a B.

A grande reclamação é que pessoas da Pista B pagaram o mesmo valor que as pessoas da Pista A, mas assistiram ao show no fundo, algo completamente bizarro, apesar de justificativas de “segurança” apresentadas pela organização.

Outro ponto que não passou batido foi a organização para entrada no estádio e locomoção dentro dele. Do lado de fora, mesmo já durante o show de abertura, da banda The Pretty Reckless, foi possível observar, por exemplo, nos acessos à Pista B, filas intermináveis e que andavam com pouca rapidez, mesmo a poucas horas do show principal.

Dentro do MorumBis, diversas reclamações sobre locomoção, especialmente nas arquibancadas, foram vistas nas redes sociais, com o público citando dificuldade para acessar as escadas e os banheiros e reclamando da lotação dos respectivos espaços.

O grande show do AC/DC

Pontualmente às 21 horas, como estava marcado no ingresso, o AC/DC subiu ao palco e gerou uma quantidade de emoções para o público impossível de mensurar. Com o guitarrista Angus Young com seu traje típico escolar nas cores verde e branca, o grupo iniciou logo de cara com “If You Want Blood (You’ve Got It)”, com apelo menor do que “Jailbreak”, mas jamais tocada em solo nacional.

A reação do público no MorumBis foi de puro êxtase. Com cerca de 90% do estádio usando os famosos “chifrinhos luminosos” na cabeça, a imagem geral do local foi daquelas que você guarda na mente por anos e anos, repetindo algo visto especialmente na passagem da banda pelo mesmo local em 2009, pela turnê do álbum “Black Ice”.

Nem bem teve tempo de respirar, o público já foi presentado com um dos maiores clássicos do rock na sequência: “Back in Black” fez o MorumBis inteiro pular e cantar, gerando um eco gigantesco digno dos grandes espetáculos do rock.

Importante enfatizar que o que todos sabem: o vocalista Brian Johnson, infelizmente, não consegue mais cantar como antes. Justamente por isso, rezam as boas regras de convivência, civilidade e bom-senso que qualquer tipo de crítica seja, acima de tudo, justa com o atual cenário.

Qualquer indivíduo com o mínimo de cérebro funcionando sabe que aquele Brian Johnson dos Anos 1980 não existe mais, tampouco o de 2009, que já tinha algumas dificuldades em determinadas músicas. Por isso, não dá para exigir, reclamar ou criticar a voz do sujeito que ajudou a trazer com muito mérito o AC/DC das cinzas após a morte do vocalista anterior, Bon Scott. Respeito, gratidão e reverência ao agora senhor de 78 anos de idade é o mínimo exigido.

É sempre bom frisar que o mundo da vida real nunca é igual ao das “redes antissociais”. Do futebol à música, as críticas injustas, ásperas e, muitas vezes, mal-educadas das redes não são vistas ao vivo.

Exatamente por isso, o sentimento dominante no MorumBis no dia 24 de fevereiro de 2026 foi de contemplação e emoção. Quem estava ali sabia que estava diante de lendas do rock e era um privilegiado por isso. Portanto, o que importava era presenciar aquele momento e se entregar ao rock do AC/DC.

Depois de trazer para o show a boa “Demon Fire”, do mais recente álbum, o AC/DC tocou na sequência uma quadra de sucessos com “Shot Down in Flames”, “Thunderstruck”, “Have a Drink on Me” e “Hells Bells”.

Em “Shot Down in Flames”, o público foi ao delírio quando Angus Young colocou em prática (veja o momento aqui) o famoso caminhar/dança no estilo Chuck Berry, a “Duck Walk” (ou “Passo do Pato” em português). Era rock and roll em estado puro na guitarra e na dança que estava sendo visto ali no estádio paulistano.

Com seus 70 anos de idade, Angus continua sendo a mola mestra do AC/DC. É ele que atrai todas as atenções. É ele que puxa os riffs históricos. É ele que faz a plateia admirá-lo a cada gesto.

“Hells Bells” teve o famoso sino descendo do teto enquanto os badalos eram ouvidos em alto e bom som. A emoção no MorumBis era palpável e o público apenas queria mais e mais daquele momento histórico.

Depois de mais uma do álbum mais recente, a também muito boa “Shot in the Dark” e de “Stiff Upper Lip”, o AC/DC provocou mais um momento de catarse coletiva com “Highway to Hell”. Novamente, o público cantou a plenos pulmões e pulou tanto que o estádio paulistano virou um mar com ondas de pessoas saltando a cada riff e trecho deste grande clássico do rock.

“Shoot to Thrill” e “Sin City” prepararam o terreno para mais um momento histórico com “Jailbreak”, num dos maiores momentos, ou, para muitos, o melhor momento do show, já que a banda tocou muito bem essa canção, na estreia do sucesso ao vivo em palcos paulistanos. Para quem, por exemplo, se lembra do clipe clássico da faixa sendo exibido nos poucos programas brasileiros de TV que abriam espaço para o rock nos Anos 1970, presenciar “Jailbreak” ao vivo teve uma dose de emoção a mais.

“Dirty Deeds Done Dirt Cheap” manteve o público em alta e pulando e foi seguida de “High Voltage” e “Riff Raff”, com o grupo dando a oportunidade de muitos presenciarem faixas importantes da carreira ao vivo pela primeira vez.

Importante destacar que os músicos mais novos da banda nada deixaram a dever musicalmente. Chamou a atenção num nível maior a performance do baterista Matt Laug, com uma pegada justa e adequada para cada faixa tocada.

A trinca final da primeira parte da apresentação veio, claro, com mais clássicos. Nada menos que “You Shook Me All Night Long”, “Whole Lotta Rosie” e “Let There Be Rock” foram as escolhidas.

A primeira delas, por sinal, pode ter sido o ponto mais baixo do show para quem já havia visto a banda anteriormente, já que, tanto em 1996 como em 2009, ela foi tocada com maior energia e com o público bem mais participativo. Talvez, o jeito como Brian Johnson tentou interpretá-la levou o sucesso a ficar um pouco mais morno do que o normal ao vivo.

Em “Whole Lotta Rosie” o ponto que mais chamou a atenção foi a ausência da boneca inflável gigante que sempre acompanhou a música nas turnês que passaram por São Paulo e que ficava atrás do palco. Desta vez, a banda optou por um vídeo gigante da boneca no telão de fundo.

Vale destacar que o AC/DC veio para esta turnê com uma produção bem mais modesta que nas vezes anteriores em São Paulo. Para quem viu a destruição da “Ballbreaker Tour” e o trem gigante no fundo do palco da “Black Ice Tour”, ficou bem evidente as diferenças. Mas também ficou claro que a ideia ali era privilegiar o bom e velho rock and roll.

Em “Let There Be Rock”, foi a vez de Angus Young virar o total centro de atenção do show, com sua tradicional performance e seu grande solo de guitarra. Desta vez, por razões óbvias ligadas à idade, ele foi menos elétrico do que nas apresentações de 1996 e 2009, mas compensou esta mudança com rock e um solo gigantesco que levou a música para mais de 20 minutos de duração. Com o suporte onde ficou colocado na passarela que dividia a Pista A sendo elevado a uma altura onde o guitarrista podia ser visto melhor por todo o estádio, a festa terminou com muito papel picado, tudo com desenhos ou logo da banda australiana, para o delírio dos colecionadores.

No BIS, o AC/DC trouxe mais dois clássicos “T.N.T.”, que fez o público voltar a pular e a apoteótica “For Those About to Rock (We Salute You)”, que trouxe uma versão mais lenta do que a de costume, além dos canhões de guerra tradicionais para as também tradicionais explosões ao longo da música.

Acabava ali mais uma performance histórica do AC/DC em São Paulo. Fogos de artifício apareceram atrás do palco para marcar o fim do show e o retrato geral dos rostos das pessoas presentes na Pista A do MorumBis era de satisfação plena e de desejo realizado.

Obviamente, o show de 2026 não superou o de 1996, tampouco o de 2009. A banda estava com a segunda formação clássica nas duas vezes anteriores.

Enquanto o show de 1996 no Estádio do Pacaembu é, para muitos que viram, não apenas o melhor show do AC/DC na capital paulista, mas também de todos os de rock vistos na cidade, o de 2009 no Estádio do São Paulo trouxe grandiosidade e estrutura absurdas, além da banda clássica bem azeitada (basta ver o famoso DVD com os shows de Buenos Aires, da mesma turnê, para comprovar).

Mas, tanto para os veteranos em shows da banda como para quem viu o grupo pela primeira vez, a imagem do AC/DC capitaneado por Angus Young dificilmente sairá da memória. São por performances como essa que o rock and roll continua e continuará sobrevivendo, mesmo com todo o cenário atual de perda de espaço no mainstream, mesmo com toda a quantidade de música ruim de outros estilos ganhando relevância, mesmo com a ausência no próprio estilo de novos grandes hits capazes de arrastar multidões.

O Roque Reverso não teve seu pedido de credenciamento de imprensa aceito pela assessoria do evento no Estádio do MorumBis. Mesmo assim, este jornalista se desdobrou durante boa parte do dia do show para conseguir ingresso, assistir à apresentação e trazer o que conseguiu testemunhar para os nossos nobres leitores de longa data e para os novos que estão chegando.

Para relembrar os grandes momentos do AC/DC em São Paulo, o Roque Reverso descolou clipes no YouTube, alguns deles filmados por este site. Fique inicialmente com a abertura e com “If You Want Blood (You’ve Got It)”. Depois veja os vídeos de “Back in Black”, “Hells Bells”, “Highway to Hell”, “Shoot to Thrill”, “Jailbreak”, “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, “You Shook Me All Night Long”, “Whole Lotta Rosie” e “Let There Be Rock”. Para fechar, fique com os vídeos de “T.N.T.” e “For Those About to Rock (We Salute You)”.

Set list

If You Want Blood (You’ve Got It)
Back in Black
Demon Fire
Shot Down in Flames
Thunderstruck
Have a Drink on Me
Hells Bells
Shot in the Dark
Stiff Upper Lip
Highway to Hell
Shoot to Thrill
Sin City
Jailbreak
Dirty Deeds Done Dirt Cheap
High Voltage
Riff Raff
You Shook Me All Night Long
Whole Lotta Rosie
Let There Be Rock

T.N.T.
For Those About to Rock (We Salute You)

AC/DC tem ingressos esgotados para 3 datas em São Paulo e 3 datas em Buenos Aires