Capa do álbum “Tales from Topographic Oceans”, do Yes – Foto: Reprodução

Por Marcelo Moreira, do blog Combate Rock

Depois da obra-prima vem a pretensão. Na esteira, aparece a ambição cada vez maior. O fenômeno é comum e atingiu as principais bandas de rock, mas houve um caso que simbolizou a megalomania do rock com aspirações eruditas e, por que não, de genialidade.

“Tales From Topographic Oceans”, LP duplo do Yes, de 1973, é considerado, até hoje, o auge da pretensão megalomaníaca pop de elevar rock, especialmente o progressivo, a um patamar superior como se houvesse a possibilidade de tornar as canções em “arte superior”.

Arrogância, pretensão e autoindulgência se misturaram em um processo longo sinuoso para chegar ao ápice, em um processo que culminaria com a saída do tecladista Rick Wakeman – que, curiosamente, engataria uma carreira solo recheada de pretensão e arrogância.

Anos mais tarde, Jon Anderson explicaria que “Tales” era um processo natural depois de um disco tão bom e de sucesso como “Close to the Edge”, de 1972, o melhor da banda. Para os membros do Yes, a escala de ascensão parecia não ter fim.

“Tales From Topographic Oceans” está sendo relançado agora em uma megacaixa com 10 CDs contendo uma gama variada de demos, takes alternativos, remixes e show ao vivo na íntegra de 1974. É uma megalomania típica do King Crimson, outro gigante do rock progressivo, que andou lançando caixas com 5, 8 ou 30 CDs neste século…

A reedição traz a forma remasterizada do álbum duplo original; raridades; gravações de estúdio e ao vivo inéditas; e várias novas mixagens de Steven Wilson, guitarrista e vocalista da banda inglesa Porcupine Tree, que fez o mesmo trabalho para outro trabalhos de Yes, Jethro Tull, Genesis, King Crimson, The Who e Deep Purple.

O conceito abrangente de “Tales From Topographic Oceans” foi explorado pelo vocalista Jon Anderson, que estava imerso na autobiografia de um iogue, best-seller de Paramahansa Yogananda.

Inspirando-se em uma longa nota de rodapé que descrevia quatro shastras (textos hindus que delineiam preceitos básicos da vida social e religiosa), Anderson e o guitarrista Steve Howe conceberam principalmente quatro peças musicais, cada uma ocupando um lado de um disco de vinil.

O baixista Chris Squire e o novo baterista Alan White (substituindo Bill Bruford após sua saída) seguiram o fluxo, refugiando-se no Morgan Studios, em Willesden, para utilizar um sistema de gravação de 24 canais, então revolucionário; o tecladista Rick Wakeman, no entanto, achou as ideias musicais muito livres e prolixas, e expressou sua frustração na época e continua expressando até hoje. (Wakeman faria amizade com Ozzy Osbourne durante as gravações – que estava gravando “Sabbath Bloody Sabbath” com o Black Sabbath no mesmo estúdio.)

Embora o álbum tenha dividido a crítica após o lançamento, o sucesso do Yes entre os fãs de rock continuou em ritmo acelerado. Na Inglaterra, o álbum liderou as paradas por duas semanas, tornando-se também o primeiro álbum do país a receber certificação de ouro exclusivamente por meio de pré-vendas.

Após o sucesso de “Fragile” e “Close to the Edge” nos Estados Unidos nos anos anteriores, “Tales” se tornou o terceiro álbum de estúdio da banda a alcançar o Top 10 americano, chegando ao 6º lugar.

Uma turnê subsequente, apresentando o álbum na íntegra juntamente com material adicional, durou mais de um ano e contou com mais de 150 shows. (White alegou que uma falha técnica no palco, na qual uma estrutura mecânica ao redor de sua bateria não abriu, inspirou uma cena semelhante em “This is Spinal Tap”.)

Wakeman deixou a banda brevemente após o término da turnê, mas suas contribuições podem ser ouvidas no material bônus do álbum, que oferece gravações de três shows realizados entre 1973 e 1974.

Preste a atenção nas versões preliminares e alternativas das faixas de “Topographic” (muitas das quais inéditas) e cinco “versões single editadas” que Wilson criou a partir do álbum para enfatizar as passagens musicais mais convencionais.

A obra mais pretensiosa do Yes ganha caixa com 10 CDs