The Jesus and Mary Chain – Reprodução de capa do disco

Por Luis Eduardo Leal*, especial para o Roque Reverso

Ninguém busca o cancelamento, mas tentarei escrever com simplicidade, humildade e respeito para homenagear um tempo perdido, faz 40 anos. Em 1985, talvez outubro, veio a lume um vinil – sim, vinil ainda: aquelas bolachonas enormes que eram sempre surpreendentes ao se descobrir nas prateleiras daquelas desaparecidas lojas de discos -, uma capona preta com uns inscritos também em vermelho, e o estranho nome PsychoCandy impresso num fundo branco, e com uns caras desgrenhados, descabelados e vestidos de preto aparecendo nela.

Era o primeiro disco da Corrente de Jesus e Maria, nome um tanto bíblico para designar, basicamente, dois irmãos, Jim e William Reid, escoceses, em geral um cantando e outro tocando guitarra, ambos compondo.

Estranho gostar disso no ensolarado Rio de Janeiro, mas eu sempre fui meio estranho. Darklands na orla? Bem, eu era da Tijuca. E o Crepúsculo de Cubatão ficava em Copacabana, não na Baixada Santista. Vai entender.

Vamos ao que interessa: The Jesus & Mary Chain. Havia outros incríveis, uma infinidade de gente inspirada, letra & música : The Cure, The Smiths, Echo & the Bunnymen, Pixies, Lloyd Cole & the Commotions, certamente vou esquecer de um pessoal realmente talentoso que havia na gringa e também por aqui.

Lembrando agora de um saudoso nosso, o Agenor, que escreveu uma vez: “Amor escravo de nenhuma palavra”; sim, o cara começou uma letra mandando essa, nem sei se as pessoas prestavam tanta atenção na época, mas é lindo, né.

O Jesus e Maria também tinha composições quase tão lindas quanto Eros e o cântico dos Cânticos – desculpe a hipérbole, o exagero, tudo com muito respeito, sempre, caros classicistas e religiosos. Mas essa poesia forte do J&MC, especialmente neste seminal álbum de estreia, estava submersa numa barragem de feedback: as guitarras realmente estavam no talo, muita microfonia, e era preciso fazer um tremendo esforço auditivo para capturar a poesia que estava debaixo disso tudo.

Era uma época em que se ia ao centro comercial do bairro – como a praça Saenz Peña, rs – para comprar o Melody Maker, que chegava sempre com algum atraso: o semanário tomava avião e você ia buscar caminhando algumas quadras, para economizar o do busão.

Não havia postagens na internet, não se produzia agora para tentar uma eventual viralização cinco minutos depois – enfim, havia decantação, e com decantação e espera se encontra, normalmente, qualidade.

Bons tempos, maloca jamais rimaria com piroca – sem querer dar má ideia para eventuais compositores que apareçam por aqui.

E antes que se confunda isso com elitismo, vale lembrar que Agenor está a uma letra de Angenor, que Cazuza está a uma letra de Cartola, e que o talento não escolhe CEP, pode nascer no privilégio como na dificuldade.

Era um tempo em que a palavra tinha força ainda, e em que Renato Russo dizia que o mundo seria melhor se as pessoas prestassem mais atenção ao que se dizia nas canções. Este, como Agenor, também sabia tudo – outro querido saudoso.

Por sinal, Renato Russo se deixou fotografar com uma camisa de PsychoCandy: consta que adorava o disco e o grupo, e chegou a fazer um cover de “Head On”, do álbum “Automatic”, de 1989, para o Acústico MTV. Não curto tanto esse cover, mas é só uma opinião – e RR podia fazer o que bem quisesse, era mestre, na palavra e na melodia; acho que ainda mais na palavra.

Luis Eduardo Leal nos longínquos Anos 1980

E falando em palavra, vou me despedir por aqui com uma tradução desse belo poema musicado, chamado “A Caminhada mais Difícil” (no título original, “The Hardest Walk”) uma das mais belas canções de PsychoCandy, esse lindo álbum agora quarentão.

Não vou me alongar em aspectos musicais, já muito explorados por outros resenhistas, mais capazes, de agora e dos antigamentes – não sou musicista, embora toque um pouco de piano e adore transcrições de Paralamas do Sucesso.

Várias canções do J&MC eram conhecidas pela ambiguidade: droga é amor ou o amor é uma droga; estão falando de heroína ou de uma princesa, ou mesmo de ambas?

Dizem que o efeito cerebral do vício e da paixão é semelhante, uma descarga de substâncias químicas que inebriam.

Vamos então à “Caminhada mais Difícil”:

“Nunca pensei que esse dia fosse chegar
quando as palavras e seu toque me deixariam anestesiado, indiferente
É evidente que está morto
Banhado em sangue, frio e morto como pedra

Tão difícil não se sentir envergonhado
Dos vivos jogos de amor que nós encenamos
a cada dia

Estou preso nesse casebre
À beira do mar
Vivo e sozinho
Dentro de um sonho doentio
Sou eu
que me sinto tão fraco
Não posso disfarçar, mas é tão difícil falar

Que a caminhada mais difícil que se pode tomar
É a caminhada que te leva de A para B e C – do Amor para Ver e Ser

E eu caminho
E. querida, eu digo
Não quero que você me queira
Não quero que você precise de mim
Eu sigo adiante”

Para comemorar os 40 anos do álbum do grupo The Jesus and Mary Chain , o Roque Reverso descolou clipes e vídeos no YouTube.

Fique inicialmente com o clipe clássico de “Just Like Honey”. Depois, veja um vídeo especial feito por fãs com a música “The Hardest Walk”. Para fechar, fique com um vídeo da banda tocando ao vivo, em 2015, a música “Taste the Floor”.

Se quiser ouvir o álbum na íntegra, siga para o último vídeo e deixe rolar.

*Luis Eduardo Leal é jornalista da Agência Estado e amante do bom e velho rock n’ roll.