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Iced Earth: como destruir uma carreira de 30 anos em uma tarde de fúria

Por Marcelo Moreira, do blog Combate Rock

A banda de heavy metal norte-americana Iced Earth protagoniza um caso inédito dentro do mundo pop: a incineração da própria carreira por conta do comportamento político abominável de seus integrantes, o que inclui terrorismo e atentado contra a democracia.

São recorrentes os casos de roqueiros que tiveram a carreira prejudicada ou afundada por questões extramusicais, especialmente quando envolviam escândalos sexuais ou por abuso de drogas e álcool, ou mesmo pela prática de crimes diversos. Mas por terrorismo?

O líder e fundador da banda, o guitarrista Jon Schaffer, está com prisão decretada nos Estados Unidos e está sendo procurado pelo FBI, a polícia federal americana.

Foi fotografado dentro do Congresso na absurda invasão incentivada pelo presidente Donald Trump e realizada por seus seguidores.

Trump, até o dia da invasão, de 6 de janeiro, não reconhecia a derrota na eleição presidencial e se recusava a realizar a transição para o novo presidente, o democrata Joe Biden. Fascista e autoritário, inventou teorias conspiratórias e alegava a ocorrência de fraudes, nunca comprovadas.

Schaffer é um conhecido artista conservador desde os anos 90, sendo próximo de muitos políticos do partido Republicano. No entanto, ao longo dos últimos 25 anos, foi ficando cada vez mais politizado e utilizando seus projetos pessoais para o seu ativismo.

No começo era um conservador moderado e educado, alguém que admitia debater e se mostrava bem informado e, de certa forma, lúcido. Seu projeto paralelo Sons of Liberty, que lançou um CD e um EP, era o seu veículo para defender “valores americanos” e medidas políticas liberais, com uma excessiva ênfase nas liberdades individuais.

De forma sábia, evitou contaminar o Iced Earth e outro projeto legal, o Demons & Wizards (com o amigo alemão Hansi Kursch, vocalista do Blind Guardian) com seu pensamento político, direcionando as letras para conteúdos de cunho fantástico e fictício.

Pode-se dizer que, de forma abrupta, deu uma guinada à extrema-direita e apoiou entusiasticamente a eleição de Donald Trump, em 2016. Abandonou a moderação e se tornou um ferrenho defensor de políticas deploráveis, como o muro na fronteira com o México, restrições à imigração e pautas que esbarravam frequentemente no racismo e na retirada de direitos civis.

Em um fenômeno comum também no Brasil, Shaffer abraçou o radicalismo e não teve pudor em disseminar ódio político e atacar com frequência as instituições democráticas, culminando com a invasão do Congresso na tentativa desastrada e ridícula de golpe de Estado.

Seus companheiros de banda mantiveram, um silêncio constrangedor nos últimos dias, até que o vocalista canadense Stu Block publicou nas redes sociais neste sábado (9) um texto ensaboado, em nome dos outros três integrantes, dizendo que todos os fatos precisam ser “devidamente apurados” e os responsáveis, “eventualmente punidos”.

Reiterou que ele os outros três músicos são contra qualquer tipo de violência e pregam a solidez das instituições, reforçando que tem de haver punição para que cometeu “atos ilícitos”. Previsivelmente, evitou qualquer menção ao “chefe” e seu vergonhoso comportamento.

Entretanto, neste mundo traiçoeiro da internet, Block foi desmascarado por ex-fãs brasileiros nas redes sociais com um print de um post do dia 6 de janeiro, o dia da invasão. No texto, ele exaltava a marcha e a reunião dos trumpistas e dizia estar apoiando os arruaceiros naquele “dia histórico”.

Nunca se viu, na história do entretenimento, uma autodestruição tão completa e bem feita como a que ocorreu com o Iced Earth, uma banda de metal prestigiada, embora de segundo escalão. São quase 30 anos de carreira com 15 álbuns e DVDs lançados, com resultados razoáveis de venda.

Artisticamente, despontou no início dos anos 90 fazendo um thrash metal cru e brutal, mas com dificuldades de sair do underground. Ao migrar pra o power metal e heavy tradicional, viu seu prestígio crescer na Europa e no Oriente, tornando-se uma das maiores forças do metal americano.

Um dos pontos altos da carreira é o CD duplo “The Glorious Burden”, com a maioria dos temas relacionados a fatos históricos da humanidade, especialmente batalhas e campanhas militares. O segundo disco é interessante por abordar a Guerra Civil Norte-americana (1861-1865), com a longa canção “Gettysburgh 1863” como o destaque.

Curiosamente, foi a partir desde álbum que a veia conservadora mais ativa começou a ficar latente, o que incomodou os integrantes da banda – o vocalista Tim “Ripper” Owens, ex-Judas Priest, acabou sendo demitido pouco tempo depois do lançamento de “The Glorious Burden”, em 2008.

Muito reservado, Owens apenas comentou na época que já vinha tendo divergências sérias com Shaffer, e insinuou que não eram apenas questões musicais.

Com a pisada de bola de Stu Block e seu texto desastrado – e o flagra no post de apoio aos terroristas -, é improvável que o Iced Earth retome as atividades, ou as retome tão cedo. A prisão de Jon Schaffer é bem provável, assim como um processo pesado que pode lhe render anos de cadeia por se tratar de crimes federais.

Será bem difícil também que alguma gravadora insista em bancar lançamentos da banda diante do contexto atual.

Curiosamente, o mais recente CD da banda chama-se “Incorruptible”, onde alguns temas, de forma genérica e metafórica, tratam de temas políticos, em especial a visão particular de Schaffer e dos Republicanos dos chamados “valores americanos e as liberdades individuais”.

 

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